“(…) Na arte de manipular termos incompreensíveis, ou pelo menos cujo sentido não se explica, a expressão “linha da pobreza” ocupa lugar privilegiado. É difícil encontrar jornais impressos, radiofônicops ou de TV onde não se mencione que percentagem assustadora da população de tal país ou do planeta inteiro “vive abaixo da linha de pobreza”. Mas não dão jamais a definição científica dessa famosa linha.
A linha da pobreza se calcula de acordo com o rendimento mediano em cada país (não médio, mas mediano). Tomando o rendimento que se situa no meio da escala, traça-se outra linha que separa, por sua vez, em duas, a metade de baixo. Estão classificadas como pobres de cada país, todas as residências cujo rendimento se encontre no quarto inferior de toda a escala. É, então, evidente que o “pobre” não tem absolutamente o mesmo nível de vida num país muito rico, onde o rendimento mediano é muito elevado, e num país muito pobre, ou mesmo situado na média do rendimento. O “pobre” americano ou sueco seria um milionário no Nepal. Mesmo sem ir até o Himalaia, e para mencionar os países honrosamente desenvolvidos, ainda que não constando entre os mais ricos, pode-se notar que um americano pobre atual (em torno de oito mil dólares anuais, para um indivíduo isolado) goza de uma renda sensivelmente igual à renda média, correspondendo à abastança ou muito boa, em Portugal ou na Grécia. E o “pobre” americano tem na verdade um rendimento superior, pois caindo “abaixo da linha de pobreza,” ele tem instantaneamente acesso às indenizações e a outras vantagens do welfare. Quanta afirmação enganosa em nome deste conceito tão divulgado quanto nebuloso de “linha de pobreza”!
Difundindo a mentira segundo a qual a globalização empobrece os mais pobres, os contestadores “cidadãos” cumprem uma dupla paixão. Por um lado, a paixão antiamericana, que remonta à Guerra Fria e até mais longe, no passado; por outro, a paixão antiliberal tradicional da esquerda. uma massa flutuante de algumas centenas de milhares de manifestantes compensa assim sua frustração de ter visto malograrem todos os socialismos e todas as revoluções. Estes “revolucionários sem revolução” não têm qualquer programa inteligível que possa substituir a globalização. Sua retórica nem mesmo tem a coerência artificial de ideologias totalitárias do passado. Berrando slogans, dão-se a ilusão de pensar. Devastando cidades e tentando impedir reuniões internacionais, dão-se a ilusão de agir.
O ódio à civilização liberal (…) é, para muitos, a chave da obsessão antiamericana. (…)”
(REVEL, Jean-François; A Obsessão Antiamericana: Causas e Inconseqüências - 2003. Excerto do capítulo 3 - “Ismo” Antiglobal e Antiamericano)