“A ganância é considerada o pecado das sociedades capitalistas, e a inveja, o das socialistas. Há um fundo de verdade nisso — aliás, bastante verdade. Tentando ver as coisas de maneira positiva, há quem diga que a ganância é um pouco mais do que inveja emulativa. O capitalismo concede a liberdade de ser tão rico quanto — ou melhor, mais rico do que — todos os outros. O socialismo, voando sob a bandeira da igualdade, busca uma sociedade em que ninguém tenha mais do que ninguém: “De cada um conforme suas capacidades, a cada um conforme suas necessidades”, para citar uma frase que já teve muito mais ressonância no mundo do que hoje.
A doutrina do marxismo é, entre outras coisas, um plano de vingança dos invejosos. Que outra visão se pode ter da idéia central de Karl Marx, a perpétua luta de classes culminando na derrota e erradicação da aristocracia, da classe dos rentistas, da burguesia, de todos, realmente, exceto da classe trabalhadora, que ascenderá, enfim, na forma da gloriosa ditadura do proletariado? “É apenas o marxismo, o conceito abstrato e exaltado do proletariado, dos destituídos e explorados”, escreve Helmut Schoeck, “que uma postura de inveja implacável é plenamente legitimizada”. Na opinião de certas pessoas, pode-se ver o marxismo menos como um corpo de teoria econômica do que como um ato de vingança coletiva: extraia dos ricos, é o grito de batalha, até sua última gota de sangue, está subentendido.
A inveja poderia ser interpretada como uma injustiça trazida para o nível pessoal. Por que ele e não eu? A pergunta fundamental do invejoso é, no fundo, uma pergunta sobre a injustiça da disposição das coisas no mundo. Um dos males que o socialismo deveria eliminar, junto com a injustiça, seria a própria inveja. Com todos sendo iguais, nada mais restaria para se invejar. O problema, como revelou a experiência real do socialismo revolucionário, foi que alguns acabaram sendo mais iguais do que outros, o que os colocou em posição de esmagar o resto, coisa que eles, uma vez estabelecidos como os primeiros dentre seus pares, se mostraram propensos a fazer, e, como mostrou a história, muitas vezes — como na União Soviética e na China de Mao — em proporções assustadores.
A inveja torna-se política quando generalizada. Torna-se generalizada quando uma grande parcela da sociedade, ou pelo menos uma parcela suficiente, sente, nas palavras de John Rawls em Theory of justice [Teoria da justiça], uma injustiça por parte daqueles “mais favorecidos pelos tipos de bens que possuem, e não pelos objetos específicos que possuem. As classes superiores são invejadas por sua maior riqueza e oportunidade; os que as invejam querem vantagens semelhantes para si próprios”. A inveja particular é mais individual, mais pessoal, mais obstinadamente cobiçosa, e tende a culpar os deuses, e não qualquer sistema social, por sua existência.
Nas palavras de Rawls, “podemos conceber a inveja como a propensão a ver com hostilidade a condição melhor dos outros, ainda que o fato de serem mais afortunados que nós não reduza nossas próprias desvantagens”. Sob este enforque, “a inveja é coletivamente desvantajosa; o indivíduo que inveja outro está disposto a fazer coisas que acabarão deixando os dois em situação pior, desde que a discrepância entre eles seja suficientemente reduzida”. vemos isto naquelas ocasiões em que a luta de classes corre solta. No final da década de 1970 e início da década de 1980, quando os sindicatos britânicos pareciam ter total domínio sobre a indústria, um amigo inglês, nascido em uma família da classe proletária, contou-me que, quando diziam que sua conduta agressiva acabaria afundando a economia do país, os sindicalistas britânicos costumavam responder: “Tudo bem, companheiro, contanto que aqueles bandidos da classe dominante afundem conosco”. Esta é a voz da inveja em sua forma política mais agressiva.
Na opinião de John Rawls, uma sociedade bem-ordenada fará o possível “para mitigar, se não impedir” as condições que tendem a resultar em inveja. Através de suas insitituições, entre elas aquelas que garantam uma justiça realmente cega e uma quase igualdade de oportunidades, ela pode diminuir os efeitos negativos da disparidade de rendas entre seus cidadãos. Ele observa, também, que “a pluralidade de associações voluntárias [igrejas, clubes, sindicatos e outros agrupamentos] em uma sociedade bem-ordenada, cada uma com sua própria vida interna sólida, tende a reduzir a visibilidade, ou pelo menos a visibilidade dolorosa, da variações nas perspectivas dos homens”. Tudo isso pressupõe que os favorecidos não exibam ostentosamente suas vantagens “visando humilhar os que têm menos” — algo que, num mundo cada vez mais fascinado pela propaganda, não será nada fácil de garantir. A inveja, como bem reconheceu John Rawls, constitui um problema para qualquer sociedade que se queira considerar justa, problema este que não pode ser simplesmente negado e do qual é difícil se proteger.
Um problema em escala mais ampla é aquele apresentado pela inveja no cenário internacional. Muitas — dá vontade de escrever “a maioria” — das guerras foram travadas por causa da inveja de uma nação pelo território de outra e todas as riquezas daí derivadas, ou porque uma nação sente que suas riquezas, ciosamente guardadas, estão sendo ameaçadas pelas menos ricas, que tendem, portanto, a invejar sua posição superior. A política do equilíbrio do poder tem sido empregada para impedir a lei da selva e as tentativas de hegemonia, nem sempre com o mesmo sucesso.
Em seguida, há a forte inveja que as pessoas de uma nação sentem pelas de outra, que consideram privilegiadas. Quando se examinam as formas que ela pode assumir, fica difícil não sentir que grande parte do antiamericanismo tem a inveja em seu núcleo. “As motivações emocionais do antiamericanismo”, escreve Timothy Garton Ash, em um ensaio intitulado Antieuropeísmo na América, “são ressentimento mesclado com inveja”. Este tipo de inveja irrompeu de forma lastimável após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center, em Nova York. Embora muitos intelectuais antiamericanos de outros países alegassem que o ataque ocorreu como resultado direto da política externa dos Estados Unidos, dava para farejar algo mais pessoalmente rancoroso por trás dessas alegações. Escrevendo em revistas como The London Review of Books e Granta, intelectuais europeus e de outros países vieram com a idéia de que os Estados Unidos, de algum modo, mereceram o que havia acontecido, dando a entender que, na falta de qualquer justiça, novos atentados se sucederiam, e com toda a razão.
Parte desse antiamericanismo foi do tipo corriqueiro. O teatrólogo Harold Pinter acerta direitinho quando tacha os Estados Unidos de “arrogantes, indiferentes [ao sofrimento humano, supõe-se], desdenhosos do Direito Internacional”, tudo isso tendo provoado “uma profunda repulsa e descontentamento com as manifestações do poder americano e do capitalismo global”.
Negócio corriqueiro, como eu digo; mas nada corriqueiro foi a pungente manifestação de inveja revelada, por exemplo, na revista Granta pelo romancista turco Orhan Pamuk, cuja primeira lembrança dos Estados Unidos era a de um garoto americano que morava em seu prédio em Istambul. O garoto tinha bolinhas de gude de qualidade bem superior às turcas e costumava jogá-las, ao alto da varanda, em cima de Pamuk e de seus amigos na rua lá em baixo: uma metáfora do desdém altivo resultante da opulência americana. Na mesma revista, Ramachandra Guha, um escritor indiano, escreveu que “historicamente, o antiamericanismo na Índia foi moldado por uma aversão estética pelo maior dom dos Estados Unidos: ganhar dinheiro”. Ariel Dorfman, um americano que se tornou cidadão chileno, conta que viu uma irritante criança americana cair numa piscina e começar a se afogar, enquanto ele próprio sentia “um espasmo de indiferença” diante do afogamento — “que aquilo não era da minha conta, que em algum sentido perverso aquela criança merecia aquilo”. Fico feliz em informar que Dorfman acabou salvando a criança da piscina, e mais à frente ele comenta sua emoção em última análise assassina, mas ficamos imaginando de onde deriva tamanho ódio que não de uma profundíssima inveja.
“A queimação da azia da inveja”, diz um personagem do romance intitulado Inveja (1927), escrita e protagonizada na União Soviética por Y. Olesha. “A inveja causa uma sensação de asfixia na garganta, arranca os olhos de suas órbitas.” Os personagens desse romance vivem em uma sociedade puramente socialista e assustadoramente burocratizada, e aqueles cuja sensibilidade ainda não foi extirpada sabem que suas vidas foram horrivelmente tolhidas. “Eu tinha pena dele”, diz o narrador da história em relação ao pai. “Ele já não podia ser bonito ou famoso, era um produto acabado, nunca poderia ser nada.” Nem ninguém no romance poderia, incluindo o narrador, a não ser o modelo soviético árido de um burocrata trabalhando pela glória do Estado. Uma das principais figuras da história, uma figura de grande prestígio, está tentando projetar a salsicha perfeita.
“Com exceção de nós”, diz o personagem aparentemente (mas não realmente) louco Ivan Babichev a sua filha, “tudo o que nos restou foi inveja e mais inveja…” Inveja e indiferença: “Eu chegaria a dizer que a indiferença é o melhor atributo da mente humana”, observa o mesmo Ivan Babichev. “Cultivemos a indiferença.” A moral da pequena e sombria história de Olesha parece ser que tudo o que resta aos prisioneiros de uma sociedade presumidamente livre da inveja é a inveja daqueles que podem viver fora dela. E é claro que nenhuma sociedade foi mais cheia de inveja do que a falecida (e nem um pocuo lamentada) União Soviética, onde dedurar seus vizinhos devido às suas vantagens fez da inveja um meio de vida e uma forma de ascenção.
Nenhuma utopia já inventada, por mais brutal que estivesse disposta a ser em nome de seu próprio idealismo, logrou extirpar a inveja.”
(EPSTEIN, Joseph; Inveja - 2004. Capítulo 8 - No Capitalismo, o homem inveja o homem; no Socialismo, vice-versa)