“(…)Podemos agora tentar compreender por que as pessoas detestam o capitalismo.
Numa sociedade baseada em castas e status, o indivíduo pode atribuir o destino adverso a condições cujo controle lhe escapa. É escravo porque os poderes sobre-humanos que tudo comandam designaram-lhe essa posição. Não depende dele, e não há motivos para que se envergonhe de sua sujeição. Sua mulher não o pode culpar por estar nessa categoria. Se ela disse: “Por que você não é um duque? Se fosse um duque, eu seria duquesa”, ele responderá: “Se eu tivesse nascido filho de um duque, jamais me casaria com você, uma escrava, mas sim com a filha de outro duque; se você não é duquesa, é exclusivamente culpa sua; por que você não soube escolher melhor os seus pais?”
No regime capitalista a coisa é outra. A situação de vida de cada um depende de seus próprios feitos. Quem não tiver suas ambições plenamente satisfeitas sabe muito bem que deixou escapar as oportunidades, que foi testado e considerado inapto por seus semelhantes. Se sua mulher o censura: “Por que você recebe apenas oito dólares por semana? Se fosse esperto como o seu colega Paulo, você seria chefe de seção e eu desfrutaria melhores condições de vida”, ele toma consciência da própria inferioridade e se sente humilhado.
A tão falada dureza do capitalismo consiste no fato de ele tratar cada um de acordo com a contribuição que este oferece ao bem-estar do seu semelhante. A força do princípio a cada um de acordo com seus feitos não dá margem a escusar falhas pessoais. O indivíduo sabe muito bem que existem pessoas iguais a ele que obtiveram sucesso onde ele falhou. Sabe que muitos daqueles que inveja são pessoas que se fizeram pelo próprio esforço e que partiram do mesmo ponto onde ele começou. E, muito pior, sabe que os outros também sabem disso. Ele vê nos olhos da mulher e dos filhos a reprovação silenciosa: “Por que você não foi mais esperto?” Ele vê como as pessoas admiram quem obteve mais sucesso do que ele e como contemplam com desprezo ou com piedade o seu fracasso.
O que faz com que muitos se sintam infelizes no capitalismo é o fato de que este dá a cada um a oportunidade de chegar aos cargos mais cobiçados que, é claro, só serão alcançados por alguns. Tudo o que o homem consegue ganhar é sempre mera fração do que a sua ambição o impeliu a ganhar. Existem sempre diante de seus olhos pessoas que venceram onde ele falhou. Existem companheiros que o sobrepujaram e contra quem ele nutre, no subconsciente, complexos de inferioridade. Esta é a atitude do vagabundo contra o homem que tem emprego fixo, do operário contra o chefe de seção, do executivo contra o vice-presidente, do vice-presidente contra o presidente da empresa, do homem que ganha 300.000 dólares contra o milionário, e assim por diante. A confiança em si mesmo e o equilíbrio moral de todos são solapados pelo espetáculo dos que deram provas de maior habilidade e capacidade. Cada qual está ciente de suas próprias derrotas e deficiências.
A longa lista de autores alemães que rejeitaram radicalmente as idéias “ocidentais” do iluminismo e a filosofia social do racionalismo, utilitarismo e do laissez-faire bem como as políticas desenvolviddas por essas escolas de pensamento começa com Justus Möser. Um dos novos princípios que provocaram a ira de Möser foi a exigência de que a promoção dos oficiais do exército e dos funcionários públicos fosse baseada no mérito e habilidades pessoais, e não na ascendência, linhagem nobre, idade e tempo de serviço do beneficiado. A vida numa sociedade em que o sucesso dependa exclusivamente do mérito pessoal seria, segundo Möser, simplesmente insuportável. Tal como é a natureza humana, as pessoas são propensas a superestimar seu próprio valor e méritos. Se a situação de vida de uma pessoa estiver condicionada por outros fatores além de uma superioridade inerente, quem estiver nos graus inferiores da escala pode aceitar esse resultado e, ciente de seu próprio valor, ainda preservará sua dignidade e auto-respeito. Mas será diferente se tudo depender apenas do mérito. Nesse caso, os malsucedidos sentir-se-ão insultados e humilhados. Surgirão ódio e animosidade contra quem os sobrepujou.
O sistema de preços e de mercado do capitalismo é um tipo de sociedade na qual o mérito e os empreendimentos determinam o sucesso ou a derrota do homem. Independente do que se pense do preconceito de Möser contra o princípio do mérito, deve-se admitir que ele estava certo ao descrever uma de suas conseqüências psicológicas. Ele percebeu os sentimentos daqueles que foram testados e considerados incompetentes.
No intuito de se consolar e de restaurar sua auto-afirmação, a pessoa procura um bode expiatório. Tenta convencer-se de que falhou mas não por culpa própria. Acha-se tão brilhante, eficiente e ativa quanto os que a ultrapassam. Lamentavelmente esta nossa abominável ordem social não recompensa homens de maior mérito; ela coroa o salafrário desonesto e inescrupuloso, o trapaceiro, o explorador, o “individualista grosseiro”. O que o fez fracassar foi sua honestidade. Era decente demais para recorrer aos golpes baixos aos quais seus bem-sucedidos rivais devem a supremacia. Nas condições do capitalismo, o homem é obrigado a optar por virtude e pobreza ou por imoralidade e riqueza. Ele, graças a Deus, escolheu a primeira alternativa e desprezou a segunda.
A busca de um bode expiatório é a atitude das pessoas que vivem sob uma ordem social que trata todos de acordo com sua contribuição para o bem-estar de seus semelhantes e na qual, portanto, cada um é a origem de sua própria sorte. Neste tipo de sociedade, cada indivíduo cujas ambições não tenham sido totalmente satisfeitas odeia a sorte de todos os que conseguiram mais êxito. O tolo libera esses sentimentos através da calúnia e da difamação. Os mais sofisticados não descambam para a calúnia pessoal. Sublimam seu ódio numa filosofia, a filosofia do anticapitalismo, a fim de calar a voz interior que lhes diz que, se falharam, é totalmente por culpa própria. Seu fanatismo em criticar o capitalismo está exatamente no fato de eles lutarem contra a consciência que têm da falsidade dessa crítica.
O sofrimento causado pela ambição frustrada é peculiar às pessoas que vivem numa sociedade de igualdade perante a lei. Não é a igualdade perante a lei que provoca isso, mas sim o fato de, numa sociedade desse tipo, a desigualdade dos homens em relação às suas habilidades intelectuais, à sua força de vontade e à sua experiência prática tornar-se visível. A distância entre o que o homem é e o que realiza, por um lado, e o que, por outro lado, ele pensa de suas próprias habilidades e realizações é impiedosamente revelada. Sonhar com um mundo mais “justo”, que o trate de acordo com seu “real valor”, é o refúgio de todos que têm falhas de auto-conhecimento. (…)”
(MISES, Ludwig von; A Mentalidade Anticapitalista - 1972. Excerto do capítulo 1 - As características sociais do capitalismo e as causas psicológicas de seu descrédito; item 4: O ressentimento da ambição frustrada)