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Segunda-feira, 10 de Abril de 2006
Carta aberta ao ingênuo e idealista jovem programador universitário

Em “homenagem” ao 7º Fórum Internacional de Software Livre, que inicia dia 19 deste mês em Porto Alegre, posto aqui uma carta aberta de Clemens Vasters publicada há dois anos atrás e dirigida a um jovem universitário que dedicava seu tempo a um projeto em software livre.

Caro Aiden,Eu acho que você se lembra da conversa que nós tivemos recentemente nessa conferência de software em Dublin. Você veio até mim e me disse como os assuntos que eu estava falando eram na maioria inúteis, porque tinham código-fechado, as pessoas precisavam pagar por elas e que as empresas que cobravam pelo software eram más, especialmente a Microsoft. Infelizmente eu não tenho o seu email, mas tenho certeza que essa carta vai chegar até você.

Primeiro, eu gostaria de agradecer pela conversa interessante que aconteceu, e para ter certeza de que nada do que foi dito vai desaparecer, vou lhe falar mais uma vez o que eu penso do seu trabalho, do que você pensa e, mais importante, do seu futuro.

Quando eu tinha 21 anos - como você agora - eu também estava na universidade e estava acabando o meu mestrado. Naquela época, eu era muito entusiasmado com programação e criava coisas importantes. Eu achava que era o melhor programador que o campus já tinha visto e todos os outros eram sem valor. E eu realmente escrevi alguns programas que fizeram a diferença. O programa que eu passei 3 anos programando em Turbo Pascal, de quando eu tinha 18 anos, era para o trabalho do meu pai. O trabalho dele requer muita burocracia, ele e minha mãe passavam 2 ou 3 horas por dia fazendo todas essas coisas na mão. Quando eu acabei meu programa e ele começou a ser usado, esse tempo foi de 3 horas para 15 minutos por dia. Era um software que melhorou muito a qualidade de vida da família inteira! E os amigos e colegas do meu pai amaram também. Eu não vendi muitas licenças naquela época (eu acho que tinha 3 clientes), mas cada um me rendia 1500 Marcos e essa era uma boa grana pra mim. Eu morava na casa dos meu pais, ganhando uma mesada de 120 marcos e trabalhando com cabeamento em algumas estações de TV, de vez em quando. E se eu tinha 400 Marcos por mês eu poderia me considerar muito
rico naquela época, na minha idade, porque eu tinha um custo mínimo. Então 4500 Marcos extra? Fantástico. Pra onde ia o dinheiro? Eu não consigo lembrar bem onde eu gastei, mas provavelmente com muitas festas e “mulheres, drogas e rock n roll”. Eu tinha 21 e é isso que os jovens fazem nessa idade, não é?

Aquilo era em 1990 - vamos adiantar para 2004, falando de você. Todo software que você e seu pai possam vir a se interessar já foi escrito. Provavelmente não é verdade, mas é difícil pensar em alguma coisa, não é? Ok, o software pode não rodar no seu sistema operacional favorito e pode custar uma grana, mas o que você conseguir pensar, está lá. Então, para onde você vai direcionar toda sua energia? Para esse absolutamente incrível projeto open-source que você coordena. Realmente, as coisas que você e seus amigos estão fazendo são realmente impressionantes. Algumas coisas eu provavelmente faria diferente em termos de design e arquitetura, mas ele funciona bem e é isso que importa. E você causa um impacto também. Eu sei que centenas de pessoas e dezenas de empresas usam o que você produziu. É ótimo.

Entretanto, eu começo a pensar onde está seu benefício. Você não está fazendo nenhuma grana com isso, porque o produto é open-source e você e seus amigos insistem que ele deve ser absolutamente gratuito. Então você está direcionando todo o seu tempo e energia nesse projeto para que? Fama? Para fazer uma carreira? Por favor!

Se alguém instala seu software com o disco 3 de alguma distribuição Linux, eles não estão nem aí pra quem você é. Essa coisa de fama que você está falando só funciona entre nerds. Aquela garota bonita, inteligente que está ali no bar, com quem você realmente gostaria de conversar não está nem aí se você é famoso entre um grupo de nerds e também não faz a mínima idéia de porque você seria famoso. Caia na real.

Quando você conseguir seu diploma, qual será seu plano?

Hoje sua educação universitária é gratuita como em muitos lugares da Europa, e você tem bastante tempo para trabalhar na sua formação sem muita pressão financeira. Aqui na Alemanha as coisas são um pouco extremas no sentido de que não é incomum que as pessoas passem 6, 8 ou até 10 anos(!) na escola até que elas finalmente consigam o diploma de mestrado. Então você pode não precisar pensar nisso agora, e provavelmente não precisa. Mas vamos falar sobre isso de qualquer forma.

Quando você sai da escola, seus pais estarão ansiosos para que você saia de casa. Eles gastaram 25 anos de suas vidas sendo pais e agora que estão no começo de seus 50, eles querem curtir a vida e eu tenho certeza que seu pai está ansioso para brincar com netos - mas só de vez em quando. Então você vai ter que cuidar de você mesmo.

Como? Bem, você precisa de um emprego que lhe pague. E você provavelmente quer ter seu próprio carro, seu próprio apartamento e se você realmente quiser ter uma família você vai precisar suportá-los. Tudo isso funciona com dinheiro. De onde vem o dinheiro? Se você acredita que o resultado do seu próprio trabalho deve ser gratuito para todos - quem vai pagar por ele?

Não - no final você vai arrumar um emprego que vai pagar sua casa, seu carro, sua esposa e seus filhos. Você será um desenvolvedor e, eventualmente, arquiteto ou gerente de projeto que produz software por dinheiro. Essa é sua principal habilidade e é o que você investiu 6 anos ou mais da sua vida. Aquele dinheiro vai vir ou do orçamento interno da empresa onde você vai trabalhar ou virá de um dos clientes que pagaram pela licença do software que sua empresa produz. No final, tem que ter dinheiro no seu bolso. Eu sei que não é muito romântico e tem pouco a ver com coisas do tipo “software livre é amor”, mas é inevitável. Romântico é o que você consegue obter com aquele dinheiro e isso significa uma vida decente com casa, carro e família.

Sim, eu conheço o argumento. Software deve ser livre e o dinheiro deve vir do suporte que se dá a ele. Olhe ao seu redor. Leia algumas revistas do mercado. Quem exatamente está fazendo grana de coisas “gratuitas”? A IBM, a HP também, e as grandes empresas de consultoria. Eles ganham uma grana preta. Mas eles fazem dinheiro com software open-source? Não, eles fazem grana terceirizando negócios, administrando data centers e vendendo hardware. Esse não é o lado da tecnologia que está preocupado em criar software, o lado que você gosta de estar. Esse é o lado da tecnologia que roda o software.

Onde o dinheiro é feito da criação de software, o software não é gratuito. Ou o software é pago diretamente ou é subsidiado de orçamentos em algum outro lugar, de empresas que também vendem hardware ou fazem consultoria.

Essa coisa toda de “free software” é uma mentira. É um sonho criado e popularizado por pessoas interessadas em ter software barato, para que possam diminuir seus custos e lucrar mais, ou por pessoas que demandam a tecnologia, porque fazem dinheiro dando palestras e escrevendo livros sobre como é bacana o software livre. No final da cadeia alimentar está você, que é facilmente enganado pela retórica do “vamos fazer do mundo um lugar melhor” e que é tão entusiasta da tecnologia que pensar que escrever software livre - ou qualquer outro tipo - é absolutamente a melhor maneira de gastar o seu tempo. Não importa se você ama o que você está fazendo e considera isso um hobby e quer passar 110% do seu tempo nisso: na verdade, é exploração por empresas que não estão nem um pouco interessadas em criar coisas. Elas querem apenas usar as suas criações gratuitamente. Por isso elas te enganam a fazer isso.

E eu entendo todo o aspecto altruísta disso e a idéia de ajudar pessoas a ter uma vida melhor com software livre. Tem um ditado que diz: “se você tem 20 anos e você não é um comunista, você não tem coração”, mas o ditado continua.. “se você tem 30 e ainda é um comunista, está faltando racionalidade”.

No final das contas, Aiden, é uma escolha sua. Você quer ter um carro, um casa e uma família quando você tiver 30? Você ama ser um desenvolvedor de software ao mesmo tempo? Se sim, você realmente precisa arrumar sua vida. Esqueça o sonho das coisas gratuitas e pare de evangelizar sobre isso. Isso é idiotice. É fanatismo. Se você quer colocar suas habilidades para trabalhar e você quer suportar uma família, seu trabalho e o resultado dele não podem ser gratuitos. Software é um resultado imediato da manifestação do que você aprendeu e do que você sabe. Quanto isso vale pra você? Nada? Pense melhor…

Com os melhores votos para seu futuro,

Clemens

[ carta originalmente escrita em inglês. infelizmente desconheço a origem da tradução para português-BR ]

[ postado às 13:04:20 ] - [ comente isto ]


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