a abertura de comentários em blogues pessoais algumas vezes rendem formidáveis discussões entre leitores e autores. recentemente, acompanhei um debate muito interessante ocorrido nos comentários de um weblog pessoal, onde o autor dele se identifica apenas como Lobo. o debate surgiu da opinião de Lobo à um artigo publicado no site CNET News.com, que noticiava a decisão da Microsoft em adicionar adendos aos contratos de licença de alguns produtos Beta, permitindo o uso destes pelos clientes em ambientes de produção. no post, Lobo manifestou seu asco com relação à esta decisão, conforme pode ser visto neste link aqui.
o Diogo, meu respeitável amigo e assecla do Sentinelas.org, resolveu dar início à uma polêmica discussão declarando discordância à idéia de Lobo. o debate se manteve em altíssimo nível, até que o autor do blogue irritou-se a ponto de decidir LIMAR grande parte do desfecho da discussão (originalmente haviam 12 comentários). concordo que o autor tem todo o direito de se reservar a isto, uma vez que é dono do local. entretanto, fiquei desapontado. como não vi restrição alguma quanto à citações do referido blogue, tomei a liberdade de IMPORTAR para cá a discussão, para que seja possível dar continuidade a ela e para que eu também possa opinar a respeito. minhhas considerações seguem logo abaixo.
[1] em um dos comentários ainda visíveis, Lobo comenta: “Neste caso a MS não está tratando apenas de beta users, mas de usuários finais(…)”. em primeiro lugar, “usuário final” é qualquer indivíduo fora da companhia criadora que decide por utilizar o software. em segundo lugar, se o usuário final optar por utilizar um produto Beta, ele é automaticamente considerado um Beta user. vejamos a definição do que é uma versão Beta, atentando ao que eu grifei:
The beta version of a product still awaits full debugging or full implementation of all its functionality, but satisfies a majority of the requirements. Beta versions (or just betas) stand at an intermediate step in the full development cycle. Developers release them to a group of beta testers (or, sometimes, to the general public) for a user test. The testers report any bugs that they found, features they would like to see in the final version, etc. When a beta becomes available to the general public it often becomes used almost as widely as the finished product (when developers subsequently complete that product).(…)
[2] ainda nos comentários visíveis, o autor declara: “mas ninguém questionou o produto que está por vir. Mas jamais teremos confiança em um produto Beta para um ambiente de produção. Isso seria irresponsabilidade e estupidez demais para qualquer profissional.(…)“. é nesse momento que eu chamo o Press Release da Microsoft, publicado no dia 18 de Abril de 2005, uma fonte incontestavelmente fidedigna do que a companhia questionada informa à imprensa. no item “Customers Embrace CTP Model” (”Clientes adotam o modelo Community Technology Preview“) podemos ler:
“We have heard positive feedback from our customers such as Barnes & Noble, Recall Corp. and Summit Partners, which have already deployed SQL Server 2005 and have seen an increase in performance and productivity. The quality of each CTP we have offered has improved, and each one from this point forward will only get better.”(…)
“(…)SQL Server 2005 gives us the ability to do more with less; we have seen a 20 percent performance increase in our beta tests,” said James Holt, vice president of Server Development at Townsend Analytics. “It’s absolutely rock-solid, and we’ve never seen the engine crash. SQL Server gives us an out-of-the-box competitive advantage. The price/performance ratio is phenomenal, and customers will see enhanced uptime and dramatically improved response time.”(…)
é constatado, então, o feedback positivo dos clientes com relação aos produtos Beta em questão. tudo indica que não se tratam de clientes quaisquer. são empresas conceituadas e não “irresponsáveis” como Lobo supôs.
há mais:
(…)In addition, Microsoft is running full SAP payroll, expense, tax data warehouse and document repository systems, and has more than 10 instances of SQL Server 2005 storing multiple terabytes of data. These SQL Server 2005 installations have been responsible for processing more than 7 billion transactions against Microsoft’s SAP system.(…)
ou seja: a própria Microsoft admite utilizar o SQL Server 2005 (um dos Betas) em seu sistema interno de folhas de pagamento, despesas e etc.
de onde conclui-se que a decisão de incluir os adendos, resultando na licença Go-Live, é absolutamente genuína. isto partiu da forte demanda vinda de clientes e é interessante tanto à eles quanto à Microsoft. os clientes poderão utilizar os Betas no desenvolvimento de sistemas na arquitetura inovadora do .NET Framework versão 2.0, ambiente de execuções baseado em máquina virtual que se fará presente principalmente no Longhorn, a próxima geração do sistema operacional Windows. antecipar o desenvolvimento de software dentro desta arquitetura significa ganhar tempo até que a versão final seja lançada, além de aproveitar as suas vantagens que já apresenta. vale lembrar que a licença Go-Live se refere apenas à produtos para desenvolvedores de aplicações, e claramente avisa que várias funcionalidades se tornarão obsoletas no lançamento da versão final, além de não oferecerem suporte aos produtos. quem estiver disposto a enfrentar isso, poderá utilizar as ferramentas em produção sem problemas.
[3] no corpo do próprio post do autor, ele exemplifica o seguinte: “(…)O SQL Server, por exemplo, é um servidor de banco de dados. Um ambiente de produção, por exemplo, é o banco de dados do banco onde você tem conta.(…)“. eu considero isto bastante improvável de acontecer. a licença Go-Live é restritiva quanto à distribuição do .NET Framework 2.0 Beta 2 (necessário para executar o SQL Server 2005 Express Edition), conforme diz o fragmento dela a seguir…
(…)Customers may not distribute the .NET Framework 2.0 Beta 2 with their applications (for example: end users of an ISV application based on the Beta 2 must obtain the .NET Framework Beta 2 from Microsoft, and sign the Go-Live license)(…)
…o que significa que a Empresa X desenvolvedora de um aplicativo baseado nesta versão do Framework não poderá distribuí-lo ao Banco Y. o Banco Y terá que obter o Framework diretamente com a Microsoft, antes tendo que assinar a licença Go-Live. vamos concordar que chegar até este ponto já torna esta hipótese bastante improvável? enfim, caberá ao Banco Y, portanto, tomar a decisão de concordar com os termos, que por si só não são encorajadores nem à ele, nem à Empresa X. dependendo de como for o acordo entre X e Y, um dos dois terá que arcar com as consequências desta decisão. a Microsoft deixa claro que não irá ressarcir ninguém por qualquer falha, mesmo que se prove que o problema está no seu produto.
[4] já em um dos comentários que sumiram, é dito o seguinte: “(…)Softwares Beta (…) NÃO são usados em ambientes de produção pela simples razão de que ambientes de produção precisam ser ESTÁVEIS. Um software beta por definição NÃO é estável.” ora, se o usuário final julgar que o software Beta é estável no que atende às necessidades do seu trabalho, responsabilizando-se pelas consequências do seu uso, não é necessariamente preciso que o software seja estável por completo.
aliás, o que define um software ser “instável”? eu vejo duas formas de interpretar isso. A) uma delas é dizer que o software é instável por apresentar falhas. qualquer software, sendo ele Beta ou não, é suscetível à falhas; e há softwares Beta que conseguem falhar menos que muitos softwares de versão oficial. nesse caso, o termo fica relativo à cada software. B) a outra é dizer que o software é instável por não estabelecer ainda qualquer preocupação com compatibilidade entre versões (a Go-Live, conforme já citado, deixa claro que a incompatibilidade será inevitável).
então, a Empresa X poderá considerar o seguinte: “de acordo com os testes que fiz, ‘A’ se demonstrou irrelevante, e ‘B’ estou disposto a enfrentar. assim sendo, como eu quero realmente usufruir das vantagens que os Betas oferecem, eu vou concordar com a Go-Live”.
[5] eu também acabei comentando, e fui deletado. faço questão de colar aqui o que comentei:
At 10:20 AM, Marcos Ludwig said…
Se é assim que pensam, sugiro que o autor do blogue retire o link para comentários. Se a opinião dele não pode ser questionada, se “blog não é fórum”, para quê serve esta abertura então?
Ah, em tempo: Eu sou profissional e eu também discordo de ti quanto a considerar a atitude da Microsoft uma “perversão total”.
bem, é isso. eu pude apresentar o meu ponto de vista aqui no meu espaço e eu estou disposto a discutir quaisquer pontos apresentados, desde que encarados com seriedade e acompanhados de argumentos válidos. o link de comentários abaixo é serventia da casa. se por acaso virar fórum, eu não vejo problema algum.