“(…)Desde o desenvolvimento do primeiro sistema nervoso, a evolução tem lutado para superar o “determinismo genético” - a codificação direta de comportamentos nos genes. Nenhum cientista acredita que os genes pré-programam cada comportamento isolado demonstrado por um organismo durante sua vida. A evolução evita essa pré-programação, dotando os animais com sentidos para o registro do que ocorre no ambiente e com reflexos para deixar que esses sentidos influenciem os movimentos. Esses sentidos e reflexos permitem que o comportamento localize variáveis ambientais mais rapidamente do que é possível com a evolução genética.
(…)A evolução não cessou com os olhos e a coluna espinhal. Ela tomou colunas espinhais perfeitamente boas e expandiu seus primeiros segmentos para que se tornassem grandes bastiões de antideterminismo chamados cérebros, depois acrescentou camada sobre camada de pensamentos e sentimentos entre input sensorial e output motor,
(…)Os genes raramente determinam comportamentos específicos, mas com frequência determinam os modos como as sugestões ambientais ativam os comportamentos.
(…)A teoria dos jogos mostrou a racionalização comum para a randomização em muitas situações como as apresentadas, em que os jogadores têm conflitos de interesse e obtêm benefícios prevendo o comportamento uns dos outros.
(…)”comportamneto proteiforme”. O nome para este tipo de comportamento adaptativo imprevisível inspirou-se no deus grego dos rios, Proteus.
(…)O comportamento proteiforme explica por que é mais difícil prever os movimentos de uma mosca comum nos próximos 10 segundos que a órbita de Saturno nos próximos 10 milhões de anos.
(…)A imprevisibilidade pode ser útil em muitos níveis. (…) A lição do comportamento proteiforme é muito geral: sempre que um animal beneficia-se da capacidade de prever algo sobre o comportamento ou a aparência de outro animal, o segundo animal pode beneficiar-se de tornar seu comportamento ou aparência imprevisível.
(…)Os mecanismos proteiformes podem ser uma das razões pelas quais as ciências do comportamento são muito melhores na descrição que na previsão. Às vezes podemos explicar o comportamento após o fato, e frequentemente podemos fazer previsões estatísticas sobre o comportamento médio no futuro. Contudo, é quase impossível prever se determinado coelho em determinada situação saltará para a esquerda ou para a direita.
A física oferece muitos exemplos de imprevisibilidade, mas esta geralmente está lá por acidente, não por desígnio. A teoria quântica aceitou o “ruído” das partículas elementares. Ela não presumiu, porém, que a “acidentalidade” foi colocada ali apenas para frustrar os físicos. A teoria do caos mostrou que o comportamento de muitos sistemas é muito sensível às condições iniciais. Muitos sistemas que se desenvolvem deterministicamente a curto prazo tornam-se imprevisíveis a longo prazo. A teoria do caos, contudo, não atribui qualquer intenção estratégica aos sistemas caóticos. As ciências do comportamento têm tentado seguir a física neste aspecto, vendo a imprevisibilidade como ruído. Se o mesmo animal na mesma situação faz diferentes coisas em diferentes ocasiões, isto geralmente é considerado “ruído” comportamental. Ainda assim, a evolução dotou mariposas e coelhos exatamente com este comportamento - evitar predadores pela imprevisibilidade. O tipo favorito de estatística da psicologia, chamado de análise da variância, presume que todo comportamento pode ser explicado como a interação de determinantes do ambiente e ruído não-adaptativo e aleatório. Não existe lugar para o comportamento proteiforme na análise da variância, porque esta não distingue entre erros aleatórios e imprevisibilidade adaptativa.
O comportamento proteiforme não se ajusta a esta moldura de explicação científica. Ele é tanto adaptativo quanto ruidoso, tanto funcional quanto imprevisível - como a criatividade humana. A dificuldade de prever o comportamento animal pode ser muito mais que um efeito colateral da complexidade dos cérebros de animais. Em vez disso, a imprevisibilidade pode resultar do fato de esses cérebros terem sido selecionados durante a história evolutiva para confundirem e surpreenderem todos os pretendentes a psicólogos que nos precederam. Para entendermos por que a psicologia é difícil, precisamos para de pensar nos cérebros como sistemas físicos cheios de ruído quântico e caos, ou como sistemas informatizados cheios de ruído de informações e bugs nos programas. Precisamos começar a pensar nos cérebros como sistemas biológicos que evoluíram para gerar certos tipos de imprevisibilidade adaptativa sob certas condições de competição e cortejo. Se você não procurar o comportamento proteiforme, não o encontrará.(…)”
(MILLER, Geoffrey F. - A Mente Seletiva. 2000; excertos extraídos do capítulo 11 Criatividade e humor para a conquista do amor)