“(…) A beleza transmite verdade, mas não do modo que pensamos. A importância estética não transmite verdade sobre a condição humana em geral: ela transmite verdade sobre a condição de um determinado humano, o artista. As características estéticas da arte fazem sentido principalmente como exibições da habilidade e da criatividade do artista, não como veículos de iluminação transcedental, inspiração religiosa, comentário social, revelação psicanalítica ou revolução política. Platão e Hegel menosprezavam a arte por não revelar o mesmo tipo de verdade que a filosofia, na opinião deles, podia produzir. Eles entenderam mal a finalidade da arte. É injusto esperar que um meio que evoluiu para exibir a aptidão biológica sirva bem para comunicar verdades filosóficas abstratas.
A teoria do indicador de aptidão ajuda-nos a compreender por que “arte” é um termo honroso que conota superioridade, exclusividade e sucesso. Quando matemáticos falam sobre a “arte” da comprovação de um teorema, eles estão reconhecendo que bons teoremas são com freqüência teoremas bonitos, e teoremas bonitos com freqüência são o produto de mentes com alta aptidão. Isto é uma confirmação do status social e sexual de seu meio favorito de exibição. O mesmo ocorre com as “artes” de estratégia militar, xadrez, futebol, culinária, jardinagem, ensino e do próprio sexo. Em cada um dos casos, arte implica a aplicação de habilidade além do necessário em termos práticos. Qualquer um que deseje implicar superioridade em sua linha particular de trabalho tende a autodenominar-se um “artista”. Os imperativos da exibição de aptidão permitem que compreendamos a paixão com a qual as pessoas debatem se algo é ou não é arte. Uma declaração de que o próprio trabalho é uma arte é uma declaração de status sexual e social.
Neste ponto de minha argumentação, qualquer leitor que tenha lido o livro de Immanuel Kant, Critique of Judgement, de 1790, nas últimas férias de verão, deve estar franzindo a testa em desaprovação. Mas Kant não argumentou que a beleza não pode ser reduzida a utilidade, que o prazer estético deve ser desinteressado, que “alguém possuído de anseio ou apetite é incapaz de julgar a beleza”? Sim, mas ele reconheceu que além da “beleza ideal” (desinteressada) existe uma “beleza aderente” (biologicamente relevante e pessoalmente interessada). Ele simulava ter uma prova filosófica de que a beleza ideal e desinteressada existe. Contudo, é difícil separar as “provas” de Kant das asserções idealistas sobre a psicologia humana. Se podemos descobrir uma função evolutiva para uma preferências estética, então ela é “interessada” e se podemos encontrar funções para todas as preferências, então a beleza ideal era uma ficção da imaginação celibatária de Kant. Se você busca um filósofo que compreendeu as funções biológicas da beleza, leia Nietzsche, então.
(…)
A teoria da exibição da aptidão para a estética funciona melhor para a estética popular do que para a das elites. A estética popular envolve o que as pessoas comuns consideram bonito; a estética da elite envolve os objetos de arte que pessoas altamente educadas e ricas aprendem que são dignos de comentários por seus amigos. Com a estética popular, o foco está sobre o objetivo da arte como forma de exibição da habilidade de seu criador. Com a estética elitista, o foco está sobre a resposta do observador como forma de exibição social. Em resposta à pintura de uma paisagem, o povo pode dizer: “Bem, é uma boa pintura de uma vaca, mas está um pouco borrada”. Já as elites provavelmente diriam “É encantador ver as pinceladas ardentes de Constable desafiando a banalidade anódina do gênero pastoral.” A primeira resposta parece a expressão natural das preferências estéticas humanas típicas, envolvendo as exibições artísticas de outras pessoas; a segunda parece mais uma exibição verbal em si mesma.
A estética elitista segue os mesmos princípios de sinalização que a seleção sexual, mas segue-os em uma direção cultural, especificamente planejada para constrastar com a estética popular. As elites, livres para desfrutar de todas as exibições custosas e “inúteis”, com freqüência tentam diferenciar-se da humanidade comum substituindo as preferências humanas naturais por preferências tramadas com inventividade. Se as pessoas comuns preferem cores alegres e vibrantes, as elites podem preferir monocromos, pastéis discretos e tons esquivos de gelo. Se as pessoas comuns preferem a técnica e a clara habilidade, as elites podem preferir a expressividade, o imprevisível, o aparentemente psicótico ou uma rejeição infantil da habilidade. Se o povo prefere realismo, as elites preferem a abstração. Com essas preferências, as elites podem exibir inteligência, capacidade de aprender e sensibilidade às normas culturais emergentes. Para um psicólogo evolutivo, entretanto, a beleza que pessoas comuns encontram na arte ornamental e representativa precisa diz muito mais sobre as origens da arte.
A teoria do indicador de aptidão pode explicar algumas indagações embaraçosas feitas por pessoas comuns quando entram em museus de arte moderna. Uma reação típica às pinturas expressionistas abstratas é dar de ombros e dizer “meu filho poderia ter feito isso”, “qualquer idiota poderia ter feito isso” ou “até um macaco pode pintar assim”. Em vez de sorrir com complacência ante esses comentários, deveríamos indagar quais instintos estéticos eles revelam. Dizer “meu filho poderia ter feito isso” pode significar: “Não consigo vislumbrar aqui quaisquer sinais de habilidade aprendida que distinguiriam um especialista adulto de um novato imaturo.” O comentário sobre “qualquer idiota” pode significar: “Não posso julgar o nível geral de inteligência do artista por este trabalho.” E o comentário sobre “até um macaco” pode significar: “O trabalho nem mesmo inclui qualquer evidência de capacidades cognitivas ou comportamentais únicas à nossa espécie de primatas.”
Interpretados na perspectiva da teoria de sinalização, esses comentários não são estúpidos. A maioria das pessoas quer ser capaz de interpretar obras artísticas como indicadores de habilidade e criatividade do artista. Certos estilos de arte dificultam esta tarefa. As pessoas sentem-se frustradas. Elas possuem adaptações psicológicas eficientes para fazer atribuições sobre a aptidão do artista, mas alguns gêneros de arte moderna evitam o funcionamento natural dessas adaptações. Tendo pago o ingresso do museu para verem boa arte, elas deparam-se com trabalhos que parecem planejados especificamente para prejudicar seus julgamentos sobre a qualidade. O historiador Arthur Danto fez a seguinte observação: “Ingressamos em um período de absoluta liberdade para a arte de tal forma que arte parece apenas um nome para um jogo infinito com o próprio conceito de arte.” Esta liberdade artística extrema dificulta o julgamento do talento de um artista pelas pessoas. Isto não quer dizer que toda a arte deve ser fácil, ou que a arte elitista é inválida, ou que devemos sentir-nos tranqüilos por não possuirmos cultura. A tendência humana para considerar trabalhos artísticos indicadores de aptidão está sendo usada aqui como uma sugestão para a origem evolutiva da arte - não como uma prescrição sobre os melhores procedimentos para se fazer ou apreciar arte.
Quando falamos sobre a evolução da arte, talvez estejamos falando, na verdade, sobre a evolução da tendência humana para produzir objetos materiais que anunciam nossa aptidão. Quando falamos sobre estética, talvez estejamos falando realmente sobre as preferências humanas que evoluíram para favorecer características de objetos feitos por humanos que indiquem confiavelmente a aptidão do artesão. Esta visão sugere que a estética sobrepõe-se à psicologia social. Possuímos uma capacidade natural para ver através do trabalho artístico, enxergando a habilidade e a intenção do artista. Ver um belo trabalho de arte leva-nos naturalmente a respeitar o artista. Pode ser que não nos apaixonemos por ele imediatamente. Contudo, se pudermos vê-lo, com certeza descobriremos se seus fenótipos reais estão à altura de seus fenótipos estendidos.”
(MILLER, Geoffrey F. - A Mente Seletiva. 2000; excerto extraído do capítulo 8 Artes da Sedução)