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Domingo, 27 de Março de 2005
artê

“(…) A beleza transmite verdade, mas não do modo que pensamos. A importância estética não transmite verdade sobre a condição humana em geral: ela transmite verdade sobre a condição de um determinado humano, o artista. As características estéticas da arte fazem sentido principalmente como exibições da habilidade e da criatividade do artista, não como veículos de iluminação transcedental, inspiração religiosa, comentário social, revelação psicanalítica ou revolução política. Platão e Hegel menosprezavam a arte por não revelar o mesmo tipo de verdade que a filosofia, na opinião deles, podia produzir. Eles entenderam mal a finalidade da arte. É injusto esperar que um meio que evoluiu para exibir a aptidão biológica sirva bem para comunicar verdades filosóficas abstratas.

A teoria do indicador de aptidão ajuda-nos a compreender por que “arte” é um termo honroso que conota superioridade, exclusividade e sucesso. Quando matemáticos falam sobre a “arte” da comprovação de um teorema, eles estão reconhecendo que bons teoremas são com freqüência teoremas bonitos, e teoremas bonitos com freqüência são o produto de mentes com alta aptidão. Isto é uma confirmação do status social e sexual de seu meio favorito de exibição. O mesmo ocorre com as “artes” de estratégia militar, xadrez, futebol, culinária, jardinagem, ensino e do próprio sexo. Em cada um dos casos, arte implica a aplicação de habilidade além do necessário em termos práticos. Qualquer um que deseje implicar superioridade em sua linha particular de trabalho tende a autodenominar-se um “artista”. Os imperativos da exibição de aptidão permitem que compreendamos a paixão com a qual as pessoas debatem se algo é ou não é arte. Uma declaração de que o próprio trabalho é uma arte é uma declaração de status sexual e social.

Neste ponto de minha argumentação, qualquer leitor que tenha lido o livro de Immanuel Kant, Critique of Judgement, de 1790, nas últimas férias de verão, deve estar franzindo a testa em desaprovação. Mas Kant não argumentou que a beleza não pode ser reduzida a utilidade, que o prazer estético deve ser desinteressado, que “alguém possuído de anseio ou apetite é incapaz de julgar a beleza”? Sim, mas ele reconheceu que além da “beleza ideal” (desinteressada) existe uma “beleza aderente” (biologicamente relevante e pessoalmente interessada). Ele simulava ter uma prova filosófica de que a beleza ideal e desinteressada existe. Contudo, é difícil separar as “provas” de Kant das asserções idealistas sobre a psicologia humana. Se podemos descobrir uma função evolutiva para uma preferências estética, então ela é “interessada” e se podemos encontrar funções para todas as preferências, então a beleza ideal era uma ficção da imaginação celibatária de Kant. Se você busca um filósofo que compreendeu as funções biológicas da beleza, leia Nietzsche, então.

(…)

A teoria da exibição da aptidão para a estética funciona melhor para a estética popular do que para a das elites. A estética popular envolve o que as pessoas comuns consideram bonito; a estética da elite envolve os objetos de arte que pessoas altamente educadas e ricas aprendem que são dignos de comentários por seus amigos. Com a estética popular, o foco está sobre o objetivo da arte como forma de exibição da habilidade de seu criador. Com a estética elitista, o foco está sobre a resposta do observador como forma de exibição social. Em resposta à pintura de uma paisagem, o povo pode dizer: “Bem, é uma boa pintura de uma vaca, mas está um pouco borrada”. Já as elites provavelmente diriam “É encantador ver as pinceladas ardentes de Constable desafiando a banalidade anódina do gênero pastoral.” A primeira resposta parece a expressão natural das preferências estéticas humanas típicas, envolvendo as exibições artísticas de outras pessoas; a segunda parece mais uma exibição verbal em si mesma.

A estética elitista segue os mesmos princípios de sinalização que a seleção sexual, mas segue-os em uma direção cultural, especificamente planejada para constrastar com a estética popular. As elites, livres para desfrutar de todas as exibições custosas e “inúteis”, com freqüência tentam diferenciar-se da humanidade comum substituindo as preferências humanas naturais por preferências tramadas com inventividade. Se as pessoas comuns preferem cores alegres e vibrantes, as elites podem preferir monocromos, pastéis discretos e tons esquivos de gelo. Se as pessoas comuns preferem a técnica e a clara habilidade, as elites podem preferir a expressividade, o imprevisível, o aparentemente psicótico ou uma rejeição infantil da habilidade. Se o povo prefere realismo, as elites preferem a abstração. Com essas preferências, as elites podem exibir inteligência, capacidade de aprender e sensibilidade às normas culturais emergentes. Para um psicólogo evolutivo, entretanto, a beleza que pessoas comuns encontram na arte ornamental e representativa precisa diz muito mais sobre as origens da arte.

A teoria do indicador de aptidão pode explicar algumas indagações embaraçosas feitas por pessoas comuns quando entram em museus de arte moderna. Uma reação típica às pinturas expressionistas abstratas é dar de ombros e dizer “meu filho poderia ter feito isso”, “qualquer idiota poderia ter feito isso” ou “até um macaco pode pintar assim”. Em vez de sorrir com complacência ante esses comentários, deveríamos indagar quais instintos estéticos eles revelam. Dizer “meu filho poderia ter feito isso” pode significar: “Não consigo vislumbrar aqui quaisquer sinais de habilidade aprendida que distinguiriam um especialista adulto de um novato imaturo.” O comentário sobre “qualquer idiota” pode significar: “Não posso julgar o nível geral de inteligência do artista por este trabalho.” E o comentário sobre “até um macaco” pode significar: “O trabalho nem mesmo inclui qualquer evidência de capacidades cognitivas ou comportamentais únicas à nossa espécie de primatas.”

Interpretados na perspectiva da teoria de sinalização, esses comentários não são estúpidos. A maioria das pessoas quer ser capaz de interpretar obras artísticas como indicadores de habilidade e criatividade do artista. Certos estilos de arte dificultam esta tarefa. As pessoas sentem-se frustradas. Elas possuem adaptações psicológicas eficientes para fazer atribuições sobre a aptidão do artista, mas alguns gêneros de arte moderna evitam o funcionamento natural dessas adaptações. Tendo pago o ingresso do museu para verem boa arte, elas deparam-se com trabalhos que parecem planejados especificamente para prejudicar seus julgamentos sobre a qualidade. O historiador Arthur Danto fez a seguinte observação: “Ingressamos em um período de absoluta liberdade para a arte de tal forma que arte parece apenas um nome para um jogo infinito com o próprio conceito de arte.” Esta liberdade artística extrema dificulta o julgamento do talento de um artista pelas pessoas. Isto não quer dizer que toda a arte deve ser fácil, ou que a arte elitista é inválida, ou que devemos sentir-nos tranqüilos por não possuirmos cultura. A tendência humana para considerar trabalhos artísticos indicadores de aptidão está sendo usada aqui como uma sugestão para a origem evolutiva da arte - não como uma prescrição sobre os melhores procedimentos para se fazer ou apreciar arte.

Quando falamos sobre a evolução da arte, talvez estejamos falando, na verdade, sobre a evolução da tendência humana para produzir objetos materiais que anunciam nossa aptidão. Quando falamos sobre estética, talvez estejamos falando realmente sobre as preferências humanas que evoluíram para favorecer características de objetos feitos por humanos que indiquem confiavelmente a aptidão do artesão. Esta visão sugere que a estética sobrepõe-se à psicologia social. Possuímos uma capacidade natural para ver através do trabalho artístico, enxergando a habilidade e a intenção do artista. Ver um belo trabalho de arte leva-nos naturalmente a respeitar o artista. Pode ser que não nos apaixonemos por ele imediatamente. Contudo, se pudermos vê-lo, com certeza descobriremos se seus fenótipos reais estão à altura de seus fenótipos estendidos.”

(MILLER, Geoffrey F. - A Mente Seletiva. 2000; excerto extraído do capítulo 8 Artes da Sedução)

[ postado às 19:03:18 ] - [ comente isto ]

hshshs

“(…) Nossos corpos são fontes valiosas de provas acerca das pressões da seleção sexual, porque são visíveis, mensuráveis, facilmente comparáveis com aqueles de outras espécies e relativamente não distorcidos pela cultura humana. Nos últimos anos, foram escritos muitos absurdos por teóricos pós-modernos, como Michel Foucalt, acerca da “construção social do corpo”, como se os corpos humanos fossem a encarnação de normas culturais, em vez de preferências sexuais ancestrais. Esses teóricos deveriam ir mais vezes ao zoológico. O que eles consideram uma “reformulação radical” do corpo humano pela pressão social é trivial, comparado com o poder da evolução. A evolução pode transformar um dinossauro em um albatroz, um mamífero de quatro patas em um cachalote, e um protoprimata minúsculo de olhos saltados, que abraçava árvores e pisoteava insetos, em Julia Roberts - ou Arnold Schwarzenegger. A seleção é imensamente mais poderosa que qualquer cirurgião plástico ou norma cultural. As mentes podem ser esponjas que absorvem a cultura, mas os corpos não são capazes disso. (…)”

(MILLER, Geoffrey F. - A Mente Seletiva. 2000; excerto extraído do capítulo 7 As Provas)

[ postado às 19:03:44 ] - [ comente isto ]

Terça-feira, 22 de Março de 2005
uma simples questão de tempo

[ sugiro a leitura das matérias originais linkadas nos títulos. o entendimento está sujeito a pequenas distorções de tradução. ]

PC Magazine: Você está mais seguro com o Firefox?

O Firefox é um navegador mais seguro do que o Internet Explorer? A resposta talvez seja sim, mas o assunto é mais complicado do que muitas pessoas imaginam: o Firefox tem seus próprios problemas de segurança e provavelmente está à salvo de ataques devido à sua baixa participação no mercado.

Em Fevereiro a Fundação Mozilla lançou a primeira atualização para o Firefox, versão 1.0.1. Não há funções novas neste lançamento, mas ele corrige nada menos que 17 falhas documentadas da versão 1.0. A mais famosa era uma falha que permitia o uso de domínios internacionais para enganar o usuário.

(…) Você provavelmente não leu sobre nenhuma destas falhas antes da atualização. Isto por que só recentemente que a Fundação Mozilla começou a emitir avisos de segurança, coisa que a Microsoft faz todo mês. A Mozilla não estava escondendo a maior parte destas falhas antes de publicar os avisos, mas sequer os estava divulgando. Se você sabe onde e como olhar, você pode ter uma melhor idéia destas (e outras) falhas de segurança no Firefox em bugzilla.mozilla.org, o banco de dados oficial do desenvolvimento da Mozilla. Mesmo lá a organização não é totalmente aberta sobre falhas de segurança: quando novas falhas são reportadas, as entradas no Bugzilla são geralmente feitas privadamente por um tempo enquanto os bugs são investigados e corrigidos[*].

E, ao contrário da Microsoft, quando a Mozilla corrige uma falha ela não lança um patch de correção para os usuários. Se você quer esperar por versões oficiais, sua única opção é esperar pelo próximo release geral; o upgrade da versão 1.0 para a 1.0.1 levou três meses e meio.(…)

[*] nota: esse é o modelo software livre em prática com seu representante mais próspero da atualidade. “Dados bastante olhos, todos os erros são triviais”. claro, na teoria tudo é sempre bem bonito.

Poptech: Surge primeiro spyware para Firefox

Parece que as previsões estavam corretas e a era dos spywares para o Firefox está começando. O atual método de infecção através do Firefox requer a intervenção do usuário, da mesma maneia que se iniciou no Internet Explorer: usuários recebem uma janela pop-up com a escolha de instalar um programa “necessário”, que na verdade é um spyware.

are you safer with Firefox?
spywares na raposinha: esse é o preço da fama.

[ postado às 23:03:48 ] - [ comente isto ]

Domingo, 13 de Março de 2005
aquilo que falei esses dias

“(…)O público tem uma idéia equivocada de que a ciência é um empreendimento impessoal, desapaixonado e totalmente objetivo. Enquanto a maioria das outras atividades humanas é dominada por modas e personalidades, supõe-se que a ciência seja restringida por regras de procedimento consagradas e testes rigorosos. São os resultados que contam, não as pessoas que os produzem.

Trata-se, é claro, de um disparate. A ciência é uma atividade baseada em pessoas, como todo empreendimento humano, e igualmente sujeita à moda e ao capricho. Neste caso, a moda é ditada menos pela escolha do assunto do que pela forma de os cientistas pensarem sobre o mundo. Cada época adota sua abordagem particular dos problemas cientificos, geralmente seguindo a trilha aberta por certas figuras dominantes que definem a agenda e os melhores métodos de atacá-la. Ocasionalmente, cientistas adquirem uma estatura suficiente para serem notados pelo público em geral, e, quando dotado de um talento excepcional, um cientista pode se tornar um ícone para toda a comunidade científica. Em séculos anteriores, Isaac Newton foi um ícone. Newton personificou o cientista cavalheiro - bem relacionado, devotadamente religioso, calmo e metódico em seu trabalho. Seu estilo de fazer ciência fixou o padrão por duzentos anos. Na primeira metade do século XX, Albert Einstein substituiu Newton com o ícone cientista popular. Excêntrico, descabelado, germânico, distraído, totalmente absorvido em seu trabalho e um pensador abstrato arquetípico, Einstein mudou a forma de se fazer física, questionando os próprios conceitos que definem o assunto.(…)”

(FEYNMAN, Richard P. - Física em seis lições. 1999; trecho do prefácio escrito por Paul Davies.)

[ postado às 21:03:03 ] - [ comente isto ]

Domingo, 6 de Março de 2005
os papéis sexuais, nos seres humanos, são uma expressão biológica via cultura

alguém andou lendo a revista Veja da semana passada? a capa é esta:

capa da Veja 02/03/05

eu li, mas recomendo outra revista que trata do assunto com mais propriedade, a Viver Mente & Cérebro deste mês. na capa diz: “Diferenças entre os Sexos: Muito além dos fatores culturais, a diversidade entre homens e mulheres é inata”.

capa da Viver Mente & Cérebro 03/05

esta ainda está nas bancas.

e creio ser muito provável que o estopim que gerou o interesse da imprensa pelo assunto foi o alvoroço provocado pela declaração do reitor da Universidade de Harvard. leia aqui.

[ postado às 23:03:38 ] - [ comente isto ]


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[ a cópia do conteúdo apresentado é permitida. a citação da fonte é arbitrária, embora seja considerada um ato ético e de boa educação. ;-) ]

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