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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2004

copiando a escolha do parceiro

“Afora o proxenetismo ativo, outro fator que facilita a poliginia para os ricos é a imitação.

- Quanto maior o número de mulheres com quem você passa seu tempo, e quanto mais público isso se torna - disse-me Hugh Hefner, fundador da revista Playboy, com ar meio envaidecido e meio intrigado, - maior é o número de outras mulheres que querem se envolver de algum modo com você. Acho que isso tem um tremendo poder e é um atrativo sexual.

É possível que todas estejam reagindo independentemente ao mesmo magnetismo animal, mas nem mesmo Hefner defenderia essa tese. Ele ofereceu voluntariamente a informação de que tinha que usar o aparato do playboy - o smoking e o cachimbo - para se transformar de fato no personagem que sua revista já vendia. As mulheres penduradas no braço eram simplesmente mais uma parte do aparato.

Pode-se argumentar que se trata do mais eficiente dos adornos: a “gata” pendurada no braço desperta a atenção das outras mulheres do mesmo modo que um chamariz atrai os patos. Em 1990, um biólogo chamado Lee Dugatkin fez uma série de experimentos com duas fêmeas e dois machos lebistes [Lebistes reticulatus]. Colocou uma das fêmeas, designada como “modelo”, com um dos machos e deixou que a outra observasse o casal satisfeito e o sujeito que ficava de lado, sozinho. Quando Dugatkin retirava o modelo, quase sempre a fêmea observadora partia em linha reta para o feliz namorado desta, e não para o peixe solitário. Quando ele inverteu o experimento e pôs o modelo com o macho que antes estivera sozinho, a observadora passou quase que invariavelmente a escolher o ex-perdedor. Ao que parece, sua opção pouco tinha a ver com a qualidade do macho. A observadora estava simplesmente “copiando o parceiro” escolhido pela outra fêmea.

Mais ou menos a mesma coisa parece acontecer nas populações de galos silvestres [Centrocercus urophasianus]: os machos dessa espécie norte-americana reúnem-se numa área de exibição que é uma espécie de bar de solteiros para esses galos. Invariavelmente, um dos machos de uma área dessas, em que talvez haja 20 deles, consegue 80% dos acasalamentos. Nos anos de pouco movimento, quando a fêmea não tem muita concorrência, ela parece escolher o macho com base em algum traço individual que considere desejável. Mas, nas estações movimentadas, as coisas crescem como bola de neve numa direção curiosa: quanto mais as outras fêmeas vêem um determinado macho acasalando, mais fazem fila para acasalar com ele - muitas vezes, cinco ou dez delas num só dia. As fêmeas pouco parecem se importar em saber se ele tem traços desejáveis ou não. A simples cópia da escolha do parceiro o transforma num artigo cobiçado.

Em outras palavras, as fêmeas podem escolher os machos por uma de duas estratégias: podem passar pelo processo de exame rigoroso a que chamamos de corte, ou simplesmente imitar a escolha de parceiro de outras fêmeas, como um atalho para encontrar machos desejáveis. A idéia de que copiar a escolha do parceiro também existe entre os seres humanos não surpreende ninguém que tenha sobrevivido aos namoros ginasianos. Após seus experimentos com os peixes lebistes, Lee Dugatkin e seu colega Perri Druen resolveram analisar a lógica do que chamaram de imitação do namoro entre os seres humanos. Pediram aos participantes de uma pesquisa que avaliassem o grau de atração de um indivíduo, tão-somente com base na aparência física (o clássico “numa escala de um a dez” de Bo Derek) e no conhecimento de quantos membros do sexo oposto, dentre um grupo de cinco, queriam sair com este indivíduo. Constatou-se que homens e mulheres se importavam com a popularidade, o que sugere que imitar a escolha do parceiro é um comportamento de igualdade de oportunidades. Entretanto, “a descoberta mais interessante em nosso experimento sobre a cópia da escolha do parceiro não foi a importância da popularidade, mas os traços atribuídos aos indivíduos benquistos. … O que descobrimos foi que, embora homens e mulheres atribuíssem desenvoltura social, senso de humor e riqueza aos indivíduos mais bem-vistos, surgiu uma diferença crucial entre os sexos: nossos sujeitos do sexo feminino afirmaram claramente presumir que, se outras se interessavam por um determinado varão, esse indivíduo era rico. Não sabemos por que elas saltaram para essa conclusão, mas fizeram isso inequivocamente”.

As pesquisas de comportamento são um tipo traiçoeiro de ciência, eivado o potencial de toda sorte de esteriótipos culturais. Mas, feita essa ressalva, elas são também meio divertidas. Outras pesquisas de atitudes sugerem não só que os homens adquirem status a partir do “avião” que levam pelo braço, mas também que o status mais elevado fica com o homem feio que tem uma bela parceira, como Aristóteles Onassis com Jacqueline Kennedy. A suposição que as pessoas parecem fazer, ao frigir dos ovos, é que o homem feio com uma mulher deslumbrante no braço deve ser extremamente rico. A implicação desagradável é que uma bela esposa, com roupas de alta-costura e jóias “importantes”, pode servir inadvertidamente de propaganda sexual do marido.”

(CONNIFF, Richard. História Natural dos Ricos. 2003. Excerto extraído do capítulo 10: A tentação dos banquetes à meia-noite - Alguém interessado em sexo?.)

[ postado às 01:09:53 ] - [ comente isto ]

Segunda-feira, 20 de Setembro de 2004

alguém interessado em sexo?

“Quando os psicólogos evolutivos falam do comportamento sexual humano, tendem a fazer analogias com o mundo animal e, em particular, gostam de falar dos bitacídeos. (…) quando um macho da espécie está em busca de romance, ele sai e captura um inseto ainda maior que os de praxe e alardeia sua conquista no mundo das fêmeas. Macho e fêmea juntam-se aos pares na vegetação rasteira, pendurados cara a cara pelos membros anteriores, como artistas de trapézio prestes a tentar dançar um minueto aéreo. Ele segura o inseto morto com as patas traseiras e ergue-os para a fêmea como um presente nupcial - ou, dito em termos humanos, ele paga o jantar e ela deixa que o sexo venha depois.

Nem o macho nem a fêmea são feitos de otários nessa parceria. Se o jantar é pequeno demais, ela despacha o macho antes que ele possa fazer muita coisa. Trata-se de uma variação do tema “os brilhantes são os melhores amigos das moças”, e os brilhantes - ou insetos mortos - maiores são melhores amigos. são necessários 20 minutos de cópula vigorosa para que ela perca o interesse em outros machos e ponha seus ovos - e ele só consegue esses 20 minutos se lhe levar um presente grande. Por outro lado, encerrados aqueles minutos, o macho pode pegar de volta seu presente nupcial e voar longe, para seduzir outras fêmeas.

Será que isso começa a soar tremendamente familiar? É provável que você já esteja pensando em analogias ofensivas. Por exemplo: quando, em contrato pré-nupcial, Donald Trump ofereceu a Marla, sua segunda mulher, uma fração polpuda da fortuna após cinco anos de casamento, e depois a largou no quarto ano, porventura ele não estaria administrando seus bens reprodutivos de um modo e com um senso de oportunidade dignos de um bitacídeo?

É claro que saltar dos bitacídeos para os seres humanos é perigoso. Em nossa espécie, tanto os machos quanto as fêmeas avaliam os recursos que um parceiro potencial de longo prazo pode trazer para a relação. Os homens da classe alta das gerações passadas não estavam meramente à procura de boas linhagens sangüíneas quando escolhiam suas namoradas sobretudo nas páginas de The Social Register ou do Debrett’s, nem quando formulavam uns aos outros aquela pergunta curiosa: “Que é que o pai dela faz?”. “Eu não diria que meus maridos anteriores pensassem no meu dinheiro”, comentou certa vez Barbara Hutton, herdeira da loja de departamentos Woolworth, “mas isso exercia um certo fascínio sobre eles.”. No entanto, estudo após estudo, as fêmeas humanas demonstram uma inclinação muito mais acentuada a buscar parceiros com recursos. Ao contrário das expectativas feministas, as mulheres de posses tendem a depositar uma ênfase ainda maior na situação financeira dos homens. Ou, como disse uma corretora de imóveis comerciais de Dallas, comentando sobre os homens ricos em geral: “Eles têm um letreirinho na cabeça que diz: ‘Vamos lá!’” As feministas acreditam que a ânsia de “casar com um bom partido” e subir na escada social é cultural, um subproduto da discriminação econômica e da sensibilidade embotada das corretoras de imóveis comerciais. Os psicólogos evolutivos dizem que ela também é biológica: as mulheres fazem um imenso investimento parental nos filhos, de modo que, em nosso passado evolutivo, havia uma significativa vantagem para a sobrevivência em encontrar um parceiro capaz de proporcionar esforços e recursos compensatórios.

As provas da tese do investimento parental em outras espécies são expressivas. Nos casos em que as fêmeas arcam com o grosso do custo da criação da prole, elas são excepcionalmente escrupulosas na escolha de machos que demonstrem maior aptidão, ou que, como o bitacídeo, ofereçam recursos valiosos. Insistir em que o macho ponha comida em seu prato não é o equivalente animal da prostituição das fêmeas, um simples toma-lá-da-cá que troque sexo pelo alimento. É uma forma que a fêmea tem de obter energia de que necessita para reproduzir, bem como um modo de avaliar os méritos do parceiro em potencial. Entre as andorinhas-do-mar, por exemplo, alimentar a parceira durante a corte é uma indicação fidedigna da futura capacidade parental do macho na alimenatação dos filhotes.

Nos seres humanos, a biologia deposita quase todo o ônus da reprodução nas fêmeas. A contribuição do pai só iguala a da mâe num aspecto, que por acaso vem a ser a recompensa final: ele entra com metade do genoma do filho. Afora isso, a disparidade de esforço é estarrecedora. A mulher produz apenas 400 óvulos durante a vida inteira, enquanto o homem produz 4 trilhões de espermatozóides. Isso dá cerca de 125 milhões por dia, ou, levando a coisa a um extremo ridículo, que afinal é o estilo masculino, um pouco mais de 86.805 seres humanos em potencial por minuto. Seu custo de oportunidade - aquilo de que ele abre mão ao escolhar uma parceira em vez de outra -, portanto, é quase nulo. E o custo dela é quase infinito. Ainda por cima, a mulher tem então que investir 80 mil calorias na gestação, ou mais ou menos a energia de que precisa para correr de Nova York até Chicago, e outras 182 mil calorias para amamentar o bebê por um ano - quase a energia suficiente para se esfalfar até San Francisco. Ou se arrebentar. Enquanto isso, a contribuição masculina direta através de seu intrépido espermatozóide equivale a cerca de 0,000000007 de uma caloria, o que nem chega a ser energia suficiente para ele se virar na cama e soltar um traque alto. Assim, por ventura, é de admirar que as mulheres gostem de homens que demonstrem capacidade de oferecer ajuda? Ou que, em algum lugar de nosso passado envolto em trevas, a capacidade masculina de ganhar o sustento tenha-se tornado um medidor útil do potencial reprodutivo, assim como os homens ainda avaliam esse potencial nas mulheres sobretudo com base nos rostos bonitos ou num belo par de minas de ouro, bem balançadas?

Os psicólogos evolutivos têm o cuidado de assinalar que estão apenas procurando explicar os mecanismos subjacentes a nosso comportamento cotidiano, e não endossá-los. Ademais, esses mecanismos não são obrigatórios. A evolução não precisa ditar nossas escolhas românticas ou econômicas, assim como não nos obriga a nos empanturrarmos de gorduras e açúcares. Estamos falando apenas de propensões que a cultura nos permite transformar ou rejeitar. Uma milionária pode casar-se com um motorista de táxi, um príncipe pode escolher uma balconista de lanchonete com uma proporção lastimável entre a cintura e os quadris, e todos podem viver felizes para sempre. Mas, se as coisas não costumam acontecer dessa maneira, talvez seja bom, pelo menos, sabermos o que estamos enfrentando.

(CONNIFF, Richard. História Natural dos Ricos. 2003. Excerto extraído do capítulo 10: A tentação dos banquetes à meia-noite - Alguém interessado em sexo?.)

[ postado às 22:09:00 ] - [ comente isto ]


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