alguém interessado em sexo?
“Quando os psicólogos evolutivos falam do comportamento sexual humano, tendem a fazer analogias com o mundo animal e, em particular, gostam de falar dos bitacídeos. (…) quando um macho da espécie está em busca de romance, ele sai e captura um inseto ainda maior que os de praxe e alardeia sua conquista no mundo das fêmeas. Macho e fêmea juntam-se aos pares na vegetação rasteira, pendurados cara a cara pelos membros anteriores, como artistas de trapézio prestes a tentar dançar um minueto aéreo. Ele segura o inseto morto com as patas traseiras e ergue-os para a fêmea como um presente nupcial - ou, dito em termos humanos, ele paga o jantar e ela deixa que o sexo venha depois.
Nem o macho nem a fêmea são feitos de otários nessa parceria. Se o jantar é pequeno demais, ela despacha o macho antes que ele possa fazer muita coisa. Trata-se de uma variação do tema “os brilhantes são os melhores amigos das moças”, e os brilhantes - ou insetos mortos - maiores são melhores amigos. são necessários 20 minutos de cópula vigorosa para que ela perca o interesse em outros machos e ponha seus ovos - e ele só consegue esses 20 minutos se lhe levar um presente grande. Por outro lado, encerrados aqueles minutos, o macho pode pegar de volta seu presente nupcial e voar longe, para seduzir outras fêmeas.
Será que isso começa a soar tremendamente familiar? É provável que você já esteja pensando em analogias ofensivas. Por exemplo: quando, em contrato pré-nupcial, Donald Trump ofereceu a Marla, sua segunda mulher, uma fração polpuda da fortuna após cinco anos de casamento, e depois a largou no quarto ano, porventura ele não estaria administrando seus bens reprodutivos de um modo e com um senso de oportunidade dignos de um bitacídeo?
É claro que saltar dos bitacídeos para os seres humanos é perigoso. Em nossa espécie, tanto os machos quanto as fêmeas avaliam os recursos que um parceiro potencial de longo prazo pode trazer para a relação. Os homens da classe alta das gerações passadas não estavam meramente à procura de boas linhagens sangüíneas quando escolhiam suas namoradas sobretudo nas páginas de The Social Register ou do Debrett’s, nem quando formulavam uns aos outros aquela pergunta curiosa: “Que é que o pai dela faz?”. “Eu não diria que meus maridos anteriores pensassem no meu dinheiro”, comentou certa vez Barbara Hutton, herdeira da loja de departamentos Woolworth, “mas isso exercia um certo fascínio sobre eles.”. No entanto, estudo após estudo, as fêmeas humanas demonstram uma inclinação muito mais acentuada a buscar parceiros com recursos. Ao contrário das expectativas feministas, as mulheres de posses tendem a depositar uma ênfase ainda maior na situação financeira dos homens. Ou, como disse uma corretora de imóveis comerciais de Dallas, comentando sobre os homens ricos em geral: “Eles têm um letreirinho na cabeça que diz: ‘Vamos lá!’” As feministas acreditam que a ânsia de “casar com um bom partido” e subir na escada social é cultural, um subproduto da discriminação econômica e da sensibilidade embotada das corretoras de imóveis comerciais. Os psicólogos evolutivos dizem que ela também é biológica: as mulheres fazem um imenso investimento parental nos filhos, de modo que, em nosso passado evolutivo, havia uma significativa vantagem para a sobrevivência em encontrar um parceiro capaz de proporcionar esforços e recursos compensatórios.
As provas da tese do investimento parental em outras espécies são expressivas. Nos casos em que as fêmeas arcam com o grosso do custo da criação da prole, elas são excepcionalmente escrupulosas na escolha de machos que demonstrem maior aptidão, ou que, como o bitacídeo, ofereçam recursos valiosos. Insistir em que o macho ponha comida em seu prato não é o equivalente animal da prostituição das fêmeas, um simples toma-lá-da-cá que troque sexo pelo alimento. É uma forma que a fêmea tem de obter energia de que necessita para reproduzir, bem como um modo de avaliar os méritos do parceiro em potencial. Entre as andorinhas-do-mar, por exemplo, alimentar a parceira durante a corte é uma indicação fidedigna da futura capacidade parental do macho na alimenatação dos filhotes.
Nos seres humanos, a biologia deposita quase todo o ônus da reprodução nas fêmeas. A contribuição do pai só iguala a da mâe num aspecto, que por acaso vem a ser a recompensa final: ele entra com metade do genoma do filho. Afora isso, a disparidade de esforço é estarrecedora. A mulher produz apenas 400 óvulos durante a vida inteira, enquanto o homem produz 4 trilhões de espermatozóides. Isso dá cerca de 125 milhões por dia, ou, levando a coisa a um extremo ridículo, que afinal é o estilo masculino, um pouco mais de 86.805 seres humanos em potencial por minuto. Seu custo de oportunidade - aquilo de que ele abre mão ao escolhar uma parceira em vez de outra -, portanto, é quase nulo. E o custo dela é quase infinito. Ainda por cima, a mulher tem então que investir 80 mil calorias na gestação, ou mais ou menos a energia de que precisa para correr de Nova York até Chicago, e outras 182 mil calorias para amamentar o bebê por um ano - quase a energia suficiente para se esfalfar até San Francisco. Ou se arrebentar. Enquanto isso, a contribuição masculina direta através de seu intrépido espermatozóide equivale a cerca de 0,000000007 de uma caloria, o que nem chega a ser energia suficiente para ele se virar na cama e soltar um traque alto. Assim, por ventura, é de admirar que as mulheres gostem de homens que demonstrem capacidade de oferecer ajuda? Ou que, em algum lugar de nosso passado envolto em trevas, a capacidade masculina de ganhar o sustento tenha-se tornado um medidor útil do potencial reprodutivo, assim como os homens ainda avaliam esse potencial nas mulheres sobretudo com base nos rostos bonitos ou num belo par de minas de ouro, bem balançadas?
Os psicólogos evolutivos têm o cuidado de assinalar que estão apenas procurando explicar os mecanismos subjacentes a nosso comportamento cotidiano, e não endossá-los. Ademais, esses mecanismos não são obrigatórios. A evolução não precisa ditar nossas escolhas românticas ou econômicas, assim como não nos obriga a nos empanturrarmos de gorduras e açúcares. Estamos falando apenas de propensões que a cultura nos permite transformar ou rejeitar. Uma milionária pode casar-se com um motorista de táxi, um príncipe pode escolher uma balconista de lanchonete com uma proporção lastimável entre a cintura e os quadris, e todos podem viver felizes para sempre. Mas, se as coisas não costumam acontecer dessa maneira, talvez seja bom, pelo menos, sabermos o que estamos enfrentando.”
(CONNIFF, Richard. História Natural dos Ricos. 2003. Excerto extraído do capítulo 10: A tentação dos banquetes à meia-noite - Alguém interessado em sexo?.)