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Sexta-feira, 30 de Julho de 2004

naturalmente monogâmicos (III) - o aperfeiçoamento do sexo

[ continuação ]

“(…)Como foi isso [ o aperfeiçoamento do sexo ] feito? De todas as maneiras possíveis, parece a resposta mais apropriada. Se revirmos o comportamento do atual macaco pelado, podemos ver como as coisas foram tomando forma. O aumento da receptividade da fêmea não pode explicar-se apenas em termos de aumento de natalidade. É certo que, pelo fato de estar pronta a copular mesmo durante a fase materna, a fêmea aumenta a natalidade. Dado o longo período de dependência, seria mesmo um desastre se não fizesse. Mas isto não explica por que é que a fêmea está apta a receber o macho e a excitar-se sexualmente durante todo o período cíclico. A ovulação só se dá num dado momento do ciclo, de modo que a cópula nos restantes momentos não tem função procriadora. A grande importância da cópula na nossa espécie relaciona-se manifestamente, não com a descendência, mas com a consolidação da ligação entre os pares, através das recompensas mútuas entre os dois comparsas sexuais. Neste caso, a obtenção repetida de satisfação sexual num par unido não é um vício decadente e requintado da civilização moderna, mas uma sensata tendência evolutiva da nossa espécie, que tem profundas raízes biológicas.

Mesmo quando se interrompem os ciclos mensais - isto é, quando engravida -, a fêmea continua a responder ao macho. Isto também tem importância particular, porque com o sistema de um-macho-uma-fêmea seria perigoso deixar o macho frustrado durante tanto tempo. Constituiria perigo para a estabilidade do casal.

Além de ter aumentado o período durante o qual pode haver atividades sexuais, estas também tornaram mais elaboradas. A vida de caça, que nos deu corpos pelados e mãos mais sensíveis alargou-nos também as possibilidades de estimulações corpo-a-corpo, que têm papel fundamental durante a atividade pré-copulatória. Entre nós, afagos, pressões e carícias são muito mais abundantes que entre os outros primatas. Temos ainda vários órgãos especializados, como os lábios, lobos das orelhas, mamilos, mamas, e órgãos genitais, com numerosas terminações nervosas e que se tornaram intensamente sensíveis à estimulação erótica. Os lobos das orelhas parecem mesmo ter-se desenvolvido exclusivamente para esse fim. (…) É curioso notar que o nariz protuberante, carnudo, da nossa espécie, é outro fato único e misterioso que os anatomistas também não conseguem explicar. Um deles chamou-lhe “simples variante saliente, sem significado funcional”. É difícil acreditar que um aspecto tão positivamente distinto dos apêndices dos primatas tenha evoluído sem qualquer função. Depois de se saber que as paredes laterais do nariz contém tecido erétil e esponjoso, o qual produz dilatação e aumento do nariz devido à congestão vascular do decurso da excitação sexual, começa-se a duvidar.

A par de toda a gama de melhoramentos táteis, existem alguns fenômenos visuais bastante originais. Aqui, as complexas expressões faciais desempenham um papel importante, embora tais fenômenos se tenham desenvolvido em relação com vários outros aspectos de uma comunicação melhor. Dentre todo o grupo dos primatas, a nossa espécie é a que possui a musculatura facial mais complexa. Temos mesmo, a expressão facial mais sutil e complicada de todos os animais que hoje existem. Através de ligeiros movimentos das estruturas que rodeiam a boca, o nariz, os olhos, as sobrancelhas e a testa, e de diferentes combinações desses movimentos, somos capazes de exprimir uma grande variedade de complicadíssimas mudanças de humor. Durante os encontros sexuais, especialmente durante a primeira fase de namoro, essas expressões têm importância fundamental. (…) A pupila também se dilata durante a excitação sexual e, embora se trate de uma alteração bastante pequena, talvez tenha mais influência do que pensamos. A superfície dos olhos também brilha no decurso da atividade sexual.

Tal como os lobos das orelhas e o nariz saliente, os lábios da nossa espécie são um fenômeno único, que não se encontra nos outros primatas. Claro que todas os primatas têm lábios, mas que não se viram pra fora, como os nossos. Um chimpanzé pode mover os lábios para fora e para dentro em arremedos exagerados, expondo a mucosa que normalmente se esconde dentro da boca. Mas os lábios são mantidos nesa posição apenas durante um curto período, e o animal volta a ter a sua face normal, com “lábios finos”. Nós, pelo contrário, temos os labios permanentemente virados para fora. (…) Para o chimpanzé isto [ o beijo ] é mais um sinal de saudação do que sexual, mas, na nossa espécie, o beijo é usado com ambos os significados e torna-se mesmo particularmente freqüente e prolongado durante a fase pré-copulatória. A esse respeito, era possivelmente mais conveniente manter as superfícies mucosas sensíveis permanentemente expostas, de modo que não fossem precisas contrações musculares especiais da região bucal durante os beijos prolongados. Mas isto é apenas parte da história, visto que os lábios mucosos e expostos evoluíram com uma forma característica e bem definida, demarcando-se muito bem pela pele que os rodeia. Dessa forma, podem também constituir importantes sinais de atração visual. Já vimos que a excitação sexual provoca inchaço e vermelhidão dos lábios, e a nítida demarcação dessa região intervém claramente no refinamento dos sinais, tornando mais evidentes as mudanças mais sutis no aspecto dos lábios. Sem dúvida que os lábios são sempre mais vermelhos que a pele vizinha mesmo fora do período de excitação sexual, e constituem, em qualquer momento, verdadeiros cartazes publicitários que chamam a atenção para a presença de uma estrutura tátil sexual.(…)”

[ a ser continuado ]

(MORRIS, Desmond. O Macaco Nu. 1967. Excerto do capítulo II - Sexo)

[ postado às 02:07:22 ] - [ comente isto ]

Quinta-feira, 15 de Julho de 2004

naturalmente monogâmicos (II)

“(…)Como é que o nosso comportamento sexual nos ajuda a sobreviver?(…)

(…)Torna-se evidente que a atividade sexual é muito mais intensa na nossa espécie do que em qualquer outra espécie de primatas, incluindo aquelas que nos estão mais próximas.(…)

(…)O período de receptividade sexual das macacas e das símias é mais restrito. Em regra, dura apenas uma semana, ou pouco mais dentro de cada ciclo mensal. Mesmo isto já é um grande avanço em relação aos outros mamíferos, em que tal período se limita rigorosamente ao período da ovulação; na nossa espécie, a tendência dos primatas a prolongar o período de receptividade foi levada ao extremo, visto que a fêmea é realmente receptiva em qualquer ocasião. Quando uma macaca ou uma símia engravida, ou quando amamenta, deixa de ter atividade sexual. Mais uma vez a nossa espécie alargou as atividades sexuais mesmo a esses períodos, visto que só não copula durante um certo período imediatamente anterior e posterior ao parto.

Não há dúvida de que o macaco pelado é o mais sensual de todos os primatas vivos. Para compreender as razões, é preciso remontar de novo às suas origens. Que aconteceu? Antes de tudo, o macaco pelado tinha de caçar, para sobreviver. Em seguida, tinha de ter um cérebro mais desenvolvido para suprir a sua inferioridade física na caça. Em terceiro lugar, tinha de viver uma infância muito mais longa, para crescer e educar um cérebro maior. Em quarto lugar, as fêmeas tinham de dedicar-se de corpo e alma aos bebês, enquanto os machos iam à caça. Em quinto lugar, os machos tinham de cooperar entre si durante a caça. Em sexto lugar, tinham de manter-se em pé e de usar armas para caçar alguma coisa. Não quero dizer que essas modificações tivessem sucedido pela ordem indicada; pelo contrário, elas se processaram, sem dúvida, gradual e simultaneamente, pois cada nova modificação ia interferindo com as restantes. Limito-me a enumerar as seis mudanças básicas, fundamentais, que se deram na evolução do macaco pelado. E acredito que essas mudanças contêm os ingredientes necessários para a elaboração da nossa atual complexidade sexual.

Para começar, os machos queriam contar com a fidelidade das fêmeas enquanto as deixavam sozinhas para irem caçar. Assim, estas tiveram de criar uma certa tendência ao acasalamento. Como os machos mais fracos também tinham de cooperar na caça, foram-lhes dados mais direitos sexuais. As fêmeas tinham de ser mais repartidas, passando a organização sexual a ser democrática, menos tirânica. Por seu lado, cada macho necessitava igualmente de uma tendência mais forte para acasalamento. Os machos ainda dispunham de armas mortais e as rivalidades sexuais tornavam-se muito mais perigosas: mais uma razão para que cada macho se contentasse em possuir uma única fêmea. Além de tudo isso, os jovens cresciam muito mais devagar, exigindo uma cuidadosa atenção por parte dos adultos. Foi necessário criar um tipo de comportamento paternal, com deveres partilhados entre a mãe e o pai: mais uma boa razão para um acasalamento bem vincado.

Partindo dessa situação, podemos imaginar agora como o resto teria desenvolvido. O macaco pelado teve de criar capacidade para se apaixonar, para se ligar sexualmente a um comparsa fixo, para se acasalar. Ponha-se o problema como se puser, vem tudo a dar no mesmo. Como é que isto se fez? Que fatores intervieram? Sendo primata, o macaco pelado tinha já tendência para criar ligações que duravam algumas horas, ou mesmo alguns dias, mas era preciso intensificar e prolongar o hábito. Um fator importante deve ter sido o prolongamento da infância. Durante os longos dias da fase de crescimento havia mais probabilidades de se estabelecerem profundas relações pessoais com os progenitores, muito mais poderosas e duradouras do que as existentes entre os outros macacos. A quebra desses laços familiares quando sobrevinha a maturação e a independência criaria uma “falta de relações” — um vazio que tinha de ser preenchido. Haveria, assim, um terreno preparado para se desenvolverem novos laços igualmente fortes, que substituíssem as relações com os pais.

Mesmo que isto fosse suficiente para intensificar a necessidade de formar novo acasalamento, era preciso que a união se mantivesse prolongada, pelo menos durante o período indispensável para criar uma família. Depois de se apaixonar, era preciso continuar apaixonado. O primeiro objetivo podia alcançar-se através de uma prolongada e excitante fase de namoro, mas era preciso mais alguma coisa. O método mais simples e direto era complicar e aumentar as recompensas das atividades do par. Noutras palavras, aperfeiçoar o sexo.(…)”

[ a ser continuado ]

(MORRIS, Desmond. O Macaco Nu. 1967. Excerto do capítulo II - Sexo)

[ postado às 12:07:21 ] - [ comente isto ]

Manhã de 6 de julho

Meu anjo, meu tudo, meu eu… Por que esta profunda tristeza quando é a necessidade quem fala? Pode consistir nosso amor em outra coisa que em sacrifícios, em exigências de tudo e nada? Esqueceu de que você não é inteiramente minha e de que eu não sou inteiramente seu? Oh, Deus!

Contempla a maravilhosa natureza e tranqüiliza seu ânimo na certeza do inevitável. O amor exige tudo e com pleno direito: eu para com você e você para comigo. No entanto, duvida tão facilmente que eu tenho que viver para mim e para você. Se estivéssemos completamente unidos, nem você nem eu estaríamos nos sentindo tão desolados. Minha viagem foi horrível…

Alegre-se, você é o meu mais fiel e único tesouro, meu tudo como eu para você. No mais, que aconteça o que tenha que acontecer e deva acontecer; os deuses saberão o que fazer…

Tarde de segunda-feira. Você sofre. Ah! onde estou, também ali está você comigo. Tudo farei para que possamos viver um ao lado do outro. Que vida!!! Assim!!! Sem você… perseguido pela bondade de algumas pessoas, que não quero receber porque não as mereço. Me dói a humildade do homem diante do homem. E quando me acho em sintonia com o Universo, o que sou e quem é aquele a quem chamam o Todo Poderoso? E sem dúvida… aí então aparece de novo o divino do homem. Choro ao pensar que provavelmente não receberá minha primeira carta antes de sábado. Tanto como você me ama, muito mais a amo!… Boa noite! Devo ir dormir. Oh, Deus! Tão perto! Tão longe! Não é nosso amor uma verdadeira morada do céu? E tão sólido como as muralhas do céu?!

7 de julho

Bom dia! Todavia, na cama se multiplicam meus pensamentos em você, minha amada imortal; tão alegres como tristes, esperando ver se o destino quer ouvir-nos. Viver sozinho me é possível, ou inteiramente com você, ou completamente sem você. Quero ir bem longe até que possa voar para os seus braços e sentir-me num lugar que seja só nosso, podendo enviar minha alma ao reino dos espíritos envolta em você. Você concordará comigo, tanto mais conhecendo minha fidelidade, e que nunca nenhuma outra possuirá meu coração; nunca, nunca…

Oh, Deus! Por que viver separados, quando se ama assim? Minha vida, o mesmo aqui que em Viena: sentindo-me só, angustiado. Você, amor, me tem feito ao mesmo tempo o ser mais feliz e o mais infeliz. Há muito tempo de que preciso de uma certeza em minha vida. Não seria uma definição quanto ao nosso relacionamento?… Anjo, acabo de saber que o correio sai todos os dias. E isso me faz pensar que você receberá a carta em seguida.

Fique tranqüila. Contemplando com confiança nossa vida alcançaremos nosso objetivo de vivermos juntos. Fique tranqüila, queira-me. Hoje e sempre, quanta ansiedade e quantas lágrimas pensando em você… em você… em você, minha vida… meu tudo! Adeus… queira-me sempre! Não duvide jamais do fiel coração de seu enamorado Ludwig. Eternamente seu, eternamente minha, eternamente nossos.

(BEETHOVEN, Ludwig van; trechos da Carta à Amada Imortal.)

[ postado às 12:07:49 ] - [ comente isto ]


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