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Quinta-feira, 17 de Junho de 2004

naturalmente monogâmicos

“(…)Como resultado da cooperação estabelecida e do caráter irregular do aprovisionamento de comida, teve de começar a partilhar os alimentos. Tal como os lobos paternais atrás referidos, os macacos caçadores machos também tinham de trazer comida para o abrigo, para alimentar as fêmeas ocupadas com as crias que iam crescendo tão lentamente. Esse tipo de comportamento paternal teve de ser uma nova aquisição, porque a regra geral entre os primatas atribui às fêmeas todos os cuidados com os jovens. (Somente os primatas sábios, como o nosso macaco caçador, conhecem realmente o próprio pai.)

Em vista do período extremamente longo em que os filhos são dependentes e mantêm grandes exigências, as fêmeas deixavam-se ficar quase permanentemente na habitação. Neste sentido, o novo modo de vida do macaco caçador criou um problema especial, que não existia entre os típicos carnívoros “puros”: o papel de cada sexo tornou-se mais diferenciado. Os grupos de caça, ao contrário dos carnívoros “puros”, tiveram de passar a ser exclusivamente formados por machos. E não podia haver nada mais contrário aos hábitos primatas. Não havia notícia de que um primata macho e viril partisse em excursão alimentar, deixando as fêmeas à mercê dos atrevimentos de quaisquer outros machos que pudessem aparecer. Não havia treino cultural capaz de modificar a situação. Tratava-se de qualquer coisa que exigia uma grande reviravolta no comportamento social.

A resposta para isso foi a criação de uniões aos pares. Os macacos caçadores machos e fêmeas tiveram de se apaixonar e manter-se reciprocamente fiéis. Essa tendência é normal em muitos outros grupos de animais, mas raríssima entre os primatas. Resolvia três problemas de uma só vez. Por um lado, as fêmeas mantinham-se unidas aos respectivos machos e guardavam-lhes fidelidade enquanto estivessem fora, na caça. Por outro lado, reduziam-se as rivalidades sexuais entre os machos, o que contribuía para reforçar a cooperação. Para terem êxito nas caçadas em conjunto, tanto os machos fracos como os fortes tinham o seu papel a desempenhar. Aos fracos cabia igualmente um papel importante, e não podiam ser postos à margem, como acontece em tantas espécies de primatas. E, ainda por cima, com as novas armas artificiais e mortais, o macaco caçador vivia sob uma forte pressão, para reduzir qualquer fonte de discórdia no seio da tribo. Em terceiro lugar, a instituição de uma unidade procriadora constituída por um-macho-e-uma-fêmea significava que os descendentes também seriam beneficiados. A pesada tarefa de criar e treinar jovens, que ainda por cima se desenvolviam com tanta lentidão, exigia uma firme unidade familiar. Em outros grupos de animais, como nos peixes, aves ou mamíferos, observam-se fortes ligações aos pares sempre que um dos membros tenha de suportar sozinho uma grande carga, e o macho e a fêmea mantêm-se unidos durante a estação destinada à procriação. Foi o que aconteceu também no caso dos macacos caçadores.

Desta maneira, as fêmeas tinham a certeza de que os respectivos machos as manteriam e podiam dedicar-se aos deveres maternais. Os machos estavam seguros da lealdade das suas fêmeas, podiam deixá-las para ir caçar, e evitavam lutar uns contra os outros. E a descendência recebia os maiores cuidados e atenções. Embora isso pareça a solução ideal, implicava uma mudança fundamental no comportamento sócio-sexual dos primatas, e, como veremos mais tarde, o método nunca chegou realmente a ser perfeito. Vê-se bem, pelo comportamento atual da nossa espécie, que o problema não está completamente resolvido e que os nossos primitivos instintos de primatas continuam a manifestar-se de maneiras mais atenuadas.(…)”

{MORRIS, Desmond. O Macaco Nu. 1967. Excerto do capítulo I - Origens)

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