Seleção Sexual
“Na verdade, o princípio da desvantagem zahaviano abordou um dos problemas centrais do pensamento evolucionista. Charles Darwin é mais conhecido, é claro, por sua teoria da evolução pela seleção natural. Mas, em seu livro de 1871, A ascendência do homem, propôs uma idéia igualmente importante, predominantemente ignorada até meados do século XX (talvez por contestar a supremacia masculina, que é uma ortodoxia ainda mais sagrada que a história bíblica da criação). A evolução pela seleção sexual sustenta que a mudança genética é no mínimo igualmente influenciada pela capacidade de atrair membros do sexo oposto. O problema dessas duas idéias é que, muitas vezes, elas parecem contradizer-se.
A seleção natural significa, essencialmente, que a natureza elimina os traços desfavoráveis, matando os indivíduos que os exibem. Assim, uma raposa do Ártico que tivesse na lateral uma tira de pelagem vermelha, como que a dizer “Devore-me”, acabaria rapidamente na barriga de um urso polar. Ao mesmo tempo, os indivíduos com traços mais favoráveis, como a pelagem totalmente branca para se camuflar na neve, tenderiam a sobreviver e a se reproduzir.
Na vasta maioria das espécies, entretanto, as fêmeas controlam o acasalamento e fazem a maior parte da seleção sexual, e é comum mostrarem uma atração irresistível pelos machos que trazem do lado a placa “Devore-me”. Ou seja, elas parecem escolher os machos por características que os tornam menos propensos a sobreviver. Entre os pavões, por exemplo, a manutenção de uma grande e vistosa cauda exige que o macho desperdice uma enorme quantidade de energia. Também inibe sua capacidade de voar e o torna mais vulnerável aos predadores. A coloração pardacenta da fêmea atesta sua confiança no valor da camuflagem. Não obstante, quase todas as vezes, ela prefere escolher o macho com a cauda maior e mais vistosa. O mundo natural, na verdade, está cheio de fêmeas que se deixam seduzir inteiramente por comportamentos de exibição masculinos aparentemente estúpidos, entre eles as penas brilhantes, os chifres grandes e os rituais bombásticos de acasalamento. O mesmo se aplica, é claro, ao mundo dos ricos. Quando Ron Perelman, o bilionário careca que está sempre brandindo um charuto, interessou-se por Patricia Duff, por exemplo, telefonou-lhe de seu jato particular no aeroporto internacional de Los Angeles. Não tratou de simplesmente convidá-la pra sair, mas lhe disse que os motores estavam ligados e continuariam roncando até que ela fosse ao seu encontro. E Duff, trêmula diante de uma exibição tão extravagante, acabou dizendo sim, oh, sim.
Para sermos justos, a seleção sexual masculina às vezes também impõe exibições irracionais às mulheres, e as exibições femininas também deixam todos os machos palpitando de emoção. Por exemplo, os seios pequenos são tão bons quanto os grandes para amamentar bebês e, em nosso meio ambiente ancestral, as fêmeas de peito achatado também estariam mais preparadas para trepar em árvores e correr dos predadores. Portanto, diz a lógica da seleção natural que deveríamos ser uma espécie de manequim 42. Mas os homens gostam de seios maiores. Tê-los é sem dúvida uma desvantagem, com a qual as mulheres ancestrais arcaram, segundo Zahavi, a fim de exibir maior aptidão nutricional sob a forma da gordura corporal visível.
Dada a eficiência implacável no mundo natural, como podem ter evoluído essas formas dispendiosas de ostentação, para começo de conversa? A explicação clássica, cultuada nos manuais de biologia, é o “processo descontrolado”, uma variante da teoria da seleção sexual concebida pelo matemático britânico R. A. Fisher. Digamos que os pavões ancestrais tenham começado com olhos opacos e sem caudas fartas. Então, por uma pequena mudança genética, algumas fêmeas desenvolveram uma queda por machos de cauda ligeiramente mais longa. Se esse floreio porventura ocorresse em machos maiores e melhores, as fêmeas que os escolhessem provavelmente teriam uma prole maior. A cauda mais longa proliferaria nos machos, assim como a preferência por ela nas fêmeas. Até aí, tudo bem. Só que a compreensão convencional de Fisher é que as fêmeas logo começaram a se concentrar exclusivamente neste traço, independente da qualidade geral do macho. Com isso teve início o ciclo de superação descontrolada dos rivais: ao longo de milhares de gerações, a cauda do pavão foi-se alongando e se abrindo continuamente, até que nenhum macho que se respeitasse conseguia arranjar um encontro sem ter um enorme leque chacoalhando no traseiro. Nesse ponto, a seleção natural tornou a entrar em cena, para deter o processo descontrolado no ponto em que a busca da melhor ornamentação sexual começava a atrair predadores em número suficiente para matar os machos indefesos.
O problema dessa idéia, argumentou certa vez um aluno de Zahavi, é que a seleção sexual não é caprichosa assim. Na vida real, as fêmeas testam rigorosamente os machos para saber se eles darão bons parceiros, e é claro que os machos também testam as fêmeas, embora, talvez com menos rigor. Zahavi passou a achar que as fêmeas só escolheriam um traço exagerado se ele fosse um sinal fidedigno de que o macho daria um parceiro melhor. Então, de que serve a imensa cauda para o pavão? por que o alce irlandês teria desenvolvido chifres de quase quatro metros de envergadura? E por que Steve Fossett está sempre rodando pelo planeta em seu balão?
Zahavi propôs uma resposta teórica e, um dia, confirmou-a ao observar seus galreadores. Estava tentando entender por que eles continuavam a gritar para os gaviões, em vez de se esconderem quietinhos no mato. “Foi então que percebi que eles estavam falando com o predador.” Estavam usando uma desvantagem, ao revelarem sua presença ao gavião - e anunciando que uma emboscada de surpresa não funcionaria. isso convenceu Zahavi de que as desvantagens vistosas - a gritaria dos galreadores, a cauda do pavão, os chifres do alce - têm, de fato, uma finalidade útil: as mesmas exibições que atraem as fêmeas também desencorajam os predadores e machos rivais.
Foi essa a idéia básica que o biólogo oxfordiano Alan Grafen aprimorou na linguagem da matemática teórica. Ele partiu do pressuposto de que as fêmeas usariam as desvantagens como um padrão para escolher os machos mais aptos. Por exemplo, a raposa ártica com a placa “Devore-me” não sobreviveria a um único inverno, a menos que também fosse incrivelmente veloz ou esperta. Depois, Grafen calculou a vantagem que as filhas tirariam de herdar uma aptidão maior, sem expressar aquelas estúpidas exibições masculinas de desvantagem do papai. Por último, ele acrescentou a vantagem que haveria para os filhos varões, que ficariam sobrecarregados com as exibições, mas com isso atrairiam mais fêmeas e assustariam mais rivais. Grafen aperfeiçoou seu modelo, usando uma idéia zahaviana que passara despercebida a outros cientistas: os filhoes varões, na verdade, só expressam as exibições de deficiência do papai proporcionalmente a sua própria capacidade física. Portanto, o papai pode dar pulos como um campeão, mas, se faltar ímpeto ao Filho Número Dois, ele logo cairá fora da equação evolutiva sob a forma de um lanchinho rápido. Depois que Grafen juntou todos esses cálculos, seu modelo mostrou que, no decorrer do tempo, o princípio da desvantagem resultaria numa prole maior. Por isso é que o instinto de comportamento arriscado de exibição, assim como a tendência a se ficar impressionado com ele, proliferariam numa espécie.”
(CONNIFF, Richard. História Natural dos Ricos. 2003. Excerto extraído do capítulo 7: Por que os ricos correm tamanhos riscos? - O exibicionismo faroleiro.)