“Um conhecido crítico arquitetônico de Nova York foi citado recentemente, na revista W, a propósito das monumentais realizações estéticas de outra grande senhora da Park Avenue, Courtney Sale Ross. “Courtney tem um olho clínico dos mais extraordinários que já encontrei”(…). Ross não é uma grande artista, nem tampouco é a figura de proa de algum novo e ousado movimento estético. É apenas, como disse a revista W, “a viúva mais rica da América”, com uma fortuna de 700 milhões de dólares, herdada do falecido Steve Ross, o magnata dos estacionamentos que se transformou em manda-chuva do entretenimento da Time Warner. O que o crítico de arquitetura estava fazendo levava um jeito e tanto de bajulação descarada. Era o equivalente de um babuíno subalterno a lamber delicadamente os carrapichos do traseiro de uma fêmea dominante.
Aliás, literalmente equivalente. A palavra “lisonja” [flattery] vem do francês antigo flatter, que significa “afagar ou acariciar”. (…) o psicólogo britânico Robin Dunbar sugere que os seres humanos desenvolveram a linguagem (e também os gestos de lisonja) como um substituto dos comportamentos convencionais de catação dos primatas. Lamber carrapichos, catar piolhos e outras formas sumamente pessoais de afagos funcionam, entre a maioria dos primatas, como o principal passatempo social para unir amigos e familiares, e também como um dos instrumentos mais importantes para a ascensão social. Os macacos e os hominiódeos dedicam muito mais tempo a essas atividades do que seria justificável unicamente pela higiene - até 20% do dia, em algumas espécies. A catação libera encefalinas e endorfinas, os opiáceos naturais do corpo, e aquele que a recebe extasia-se numa maré de branda euforia. A idéia é que o beneficiário agradecido retribua o favor, presumindo-se que não pegue no sono.
(…)Alisar com palavras gentis costuma ser menos invasivo. A maioria dos primatas vive em grupos de não mais de 40 ou 50 animais, ao passo que os seres humanos, segundo Dunbar, foram feitos para manter relações pessoais razoavelmente próximas com umas 150 pessoas. É um bocado de traseiros para afagar, ou, se você por acaso for uma Courtney Sale Ross, um amontoado terrível de gente a fazer fila para agradá-la. Escreve Dunbar: “Se os seres humanos modernos tentassem usar a catação como o único meio de reforçar seus laços sociais, como fazem os outros primatas, … teríamos que dedicar uns 40% do dia ao acarinhamento recíproco.” É muito mais prático para todos os envolvidos fazê-lo pela revista W.
Traço comum com os macacos e hominióideos, ansiamos por fazer nossa catação de carrapichos com os manda-chuvas e as grandes damas. Em outras palavras, a lisonja e outras formas de afago trazem sua recompensa máxima quando tomamos o cuidado de agradar os indivíduos que estão no topo da hierarquia social.(…)
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O efeito cumulativo de toda essa correria, dos esforços para servir e das mesuras e obséquios, pode ser profundo, o que nos leva de volta à afirmação corriqueira dos ricos de que eles são “apenas pessoas normais”. “A riqueza não modifica as pessoas”, comentou Henry Nicholas, da Broad.com. “Ela modifica a maneira como os outros a tratam”. Mas a verdade é que nada altera mais um indivíduo do que a maneira como ele é tratado. A deferência alheia, na verdade, pode alterar a neuroquímica do cérebro do indivíduo. A serotonina é um neurotransmissor, uma substância que facilita o fluxo dos impulsos nervosos nas ligações sinápticas e parece deixar as pessoas mais serenas e socialmente receptivas. Quando é elevado, com a ajuda de medicamentos como o Prozac, ela passa a ser auxiliar no combate à depressão. Os níveis de serotonina normalmente oscilam de acordo com nossas experiências cotidianas. Num estudo feito com cercopiteídeos, constatou-se que os indivíduos de alta posição tinham níveis de serotonina duas vezes maiores que os de seus subalternos - e o comportamento obsequioso dos subalternos parecia ser uma importante razão disso. A equipe de pesquisa, chefiada por Michael T. McGuire, da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em Los Angeles, pôs um exemplar alfa desse macaco numa sala com um espelho unidirecional, de modo que ele podia ver seus subalternos, mas estes não o viam nem podiam responder a suas exibições de dominação. No intervalo de alguns dias, seus níveis de serotonina despencaram. Ao que parece, sua sensação de bem-estar dependia, ao menos em parte, do recebimento de sua dose mínima diária de deferência e submissão. A oportunidade de fazer exibições de submissão também era claramente importante para os subalternos. A serotonina elevada, na verdade, parecia inibir a agressividade destrutiva do macaco dominante. Aumentava sua habilidade de conquistar aliados e usar outros meios de dominação pró-social.
Em seguida, McGuire sugeriu uma ligação similar entre a dominação social e os níveis de serotonina nos seres humanos. Num estudo informal jamais publicado em revistas científicas, ele constatou que os dirigentes de uma agremiação universitária estudantil tinham mais serotonina do que seus colegas menos poderosos do grêmio. Eles não pareciam haver nascido assim, fadados a ser presidentes do Delta Kappa Epsilon. Não era a serotonina elevada que os tornava dominantes. A dominação é que parecia dar-lhes essa serotonina elevada, a posteriori. Em certo sentido, a deferência dos subordinados é que lhes dava os instrumentos para liderar, depois de assumirem o cargo.(…)
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Em algumas espécies animais, a hierarquia social é tão importante que deixa sua marca em carne e osso na fisiologia de dominadores e subordinados. Os camundongos, por exemplo, são rigorosamente capazes de farejar a dominação. Conseguem identificar os marcadores olfativos do macho que os derrotou numa ocasião anterior. Curiosamente, tendem a não se afastar do cheiro do macho dominante, mas a ensaiar uma aproximação cada vez maior, rastejando de barriga, como que a se perguntar: será que o camundongo alfa que me desancou está perto o bastante para repetir a dose? E, se estiver, talvez a bajulação o dissuada de tornar a me bater.
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Dada a diminuição do sentido olfativo em nossa espécie, seria um absurdo sugerir que os seres humanos são comumente capazes de farejar a dominação social, muito menos a riqueza. Mas a dominação nos espicaça de outras maneiras, como é evidenciado sobretudo pelo hormônio chamado cortisol. Produto do córtex adrenal, o cortisol tem poderosa influência sobre o estado de ânimo, a pressão sangüínea, a formação muscular, as células do sistema imunológico, as inflamações e a função gastrintestinal. O pico dos níveis de cortisol também é essencial para lidar com o intenso estresse físico ou mental. Nos indivíduos dominantes, o cortisol tende a atingir picos poderosos diante das ameaças e, em seguida, recair rapidamente num nível de repouso relativamente baixo. Em geral, os indivíduos com esse perfil são hábeis em ignorar alarmes falsos e agressivos ao rebater ameaças verdadeiras. Nos seres humanos subalternos, tal como camundongos subalternos, é típico o perfil inverso: níveis de cortisol cronicamente aumentados pelo estresse no estado de repouso e picos insuficientes nas horas de necessidade. Os alarmes falsos deixam-nos assustados e falta-lhes o que é preciso para enfrentar as ameaças graves.
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Os níveis cronicamente elevados de cortisol podem ter graves conseqüências fisiológicas, inclusive hipertensão, letargia, depressão e perda de tônus muscular (os ricos ficam mais ricos, os pobres ficam mais fracos). O cortisol também influencia a acumulação de gordura no abdômen. Um estudo recente constatou que as mulheres que se avaliavam como tendo baixo status socioeconômico não só apresentavam níveis mais elevados de cortisol, como também, aparentemente como resultado disso, sofriam da indignidade da barriga roliça da classe baixa. As mulheres que se consideravam ricas e poderosas tinham níveis mais baixos de cortisol e tendiam a ser mais esbeltas e mais saudáveis.”
(CONNIFF, Richard. História Natural dos Ricos. Resumo parcial do capítulo 6: O coração prestimoso - Comportamentos subalternos.)
glossário:
individuo beta = subalterno, subordinado.
indivíduo alfa = líder, dominante.